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Escadas Rolantes

Na minha terra costuma dizer-se: Quando a merda chega à ventoinha, ficam todos cagados!

Escadas Rolantes

Na minha terra costuma dizer-se: Quando a merda chega à ventoinha, ficam todos cagados!

23
Fev22

Teorias da Conspiração

escadas

 

No passado dia 16 de fevereiro, foi lançado o livro "Teorias da Conspiração".

A cerimónia decorreu no Palácio Foz em Lisboa e contou com a presença de Jorge Alexandre Lopes da Antena 1 e do Professor José Manuel Anes.

No final da cerimónia, fui desafiado a publicar o texto que agora disponibilizo e que fez parte da minha apresentação.

O vídeo da cerimónia está disponível na página de Facebook do "Teorias da Conspiração - Antena 1".

 

 

Boa tarde.

Em primeiro lugar gostaria de agradecer a vossa presença nesta cerimónia, a qual engrandece o propósito da mesma.

Gostaria igualmente de agradecer ao Secretário-geral da Presidência de Conselho de ministros, o Dr. David Xavier e a toda a sua equipa, pela cedência deste magnifico espaço (palácio Foz) carregado de história.

À Leya pelo convite para escrever este livro e por ter proporcionado esta oportunidade.

Á Maria Papoila, mais propriamente à Jacinta, pelos miminhos, ao Rui Pego, enquanto diretor de programas da Antena 1, por ter apostado no projeto radiofónico do “Teorias da Conspiração”.

Ao Jorge Alexandre Lopes, não só pela sua presença aqui hoje, mas também por ter apoiado essa aventura que foi a produção e emissão do “Teorias”. Devo dizer que depois de mim, o Jorge Alexandre Lopes é a pessoa em Portugal que mais gosta de rádio.

Ao Filipe Ligeiro da Antena 1. O Filipe é uma das pessoas que nunca se vê. Funciona atrás dos microfones e zela para que do ponto de vista técnico tudo funcione na perfeição.

Um obrigado também muito especial ao César Martins, que é outras das pessoas que nunca dá a cara, mas que e neste caso, teve uma paciência infinita para me ajudar a equalizar tecnicamente todos os programas.

Também à Ana Sofia Carvalheda que foi a produtora delegada e que fez o “upload” dos programas.

Á Filomena Crespo que emprestou a voz aos compactos de fim-de-semana e ao Rui Santos que emprestou a sua fabulosa voz aos jingles de promoção.

E finalmente ao Professor José Manuel Anes, não só pelas suas simpáticas palavras, como pela autêntica aula que acaba de nos dar. Uma das minhas ambições de vida é passar um dia inteiro a ouvi-lo falar, e poder acompanhá-lo numa visita à Quinta da Regaleira, pois ele é uma das pessoas que mais sabe sobre os mistérios que o local encerra.

O Prof Anes é de facto uma pessoa fantástica e que ao longo da sua vida sempre se fez acompanhar pelo Livro Sagrado debaixo do braço, ao mesmo tempo que segura numa das mãos o malhete e na outra o cinzel.

Convenhamos que não é tarefa fácil conseguir progredir na vida com as mãos assim ocupadas, mas é tudo o que ele precisa para ser um homem livre e de bons costumes.

É uma honra poder contar consigo nesta cerimónia.

Aos meus filhos, ao Bruno e à Leonor, os meus mais fieis ouvintes (o Bruno telefonava todos os dias ainda não eram 9 horas da manhã com o “report” critico de cada episódio).

E á Manela. A guardiã do meu Templo, a mulher que comigo conspirou ao longo dos últimos meses (e anos) e que, face à minha ausência, segurou as pontas e manteve a barca a navegar sã e salva, mesmo no meio de todas as intempéries e que sempre acreditou no sucesso deste projeto!

E finalmente a todos vocês.

Os que estão aqui

Os que estão em casa a ver, pois esta cerimónia está a ser transmitida através das páginas de Facebook da Antena 1 e do Teorias da Conspiração.

Por isso o meu último agradecimento vai para todos aqueles ouviram e partilharam os 120 episódios do “Teorias”. Se não o tivessem ouvido, discutido e partilhado, ele nunca teria existido e não se teria transformado no êxito que é por todos reconhecido.

 

Costuma-se dizer que escrever é um ato solitário.

Diz-se que a escrita é um fenómeno que ocorre entre o autor e ele mesmo. O ato de escrever clama que a pessoa se enclausure, distanciando-se do ambiente em que se situa para se estabelecer momentaneamente num mundo até então inabitado.

Curiosamente para mim, fazer rádio é precisamente o contrário.

E este livro, sendo o reflexo de um programa de rádio, está imbuído dos mesmos princípios.

Um livro não passa de um conjunto de carateres, ordenados, que alguém em determinada altura se lembrou de os desenhar/ordenar.

Depois de embrulhado numa capa mais ou menos natalícia, ele só se transforma verdadeiramente em livro, quando alguém o decide ler.

Tal como um quadro, cada pessoa que o lê atribui-lhe uma realidade. Interpreta-o de uma forma unipessoal.

Sem leitores os livros não existem.

Com a rádio é a mesma coisa.

Um programa vive dos seus ouvintes

Se ninguém o ouve, ele não passa de uma inóspita experiência sonora.

É esta interatividade que transforma o ato de falar ao microfone, num ato social.

Uma das minhas melhores memórias de infância, era quando os meus pais me levavam à noite à esplanada do Café central em Reguengos de Monsaraz no Alentejo.

Lembro-me que as mesas estavam sempre cheias. As famílias saiam à noite e falavam todas umas com as outras.

As pessoas falavam!

Ainda á pouco tempo tive oportunidade de ver esse mesmo “fenómeno” em Espanha.

Pais, filhos, netos, tios, sobrinhos, todos eles comungavam essa experiência de…FALAR!

Lamentavelmente, hoje em dia, já não falamos uns com os outros.

Escrevemos no Facebook, enviamos fotos no Whatsapp e tiramos fotografias para serem colocadas no Instagram.

Há uns anos o Alexandre Cortez desafiou-me a participar numa sessão de poesia que decorria habitualmente num bar do cais do Sodré: o Music Box.

Devo dizer que aceitei com alguma relutância, pois não percebia que sentido fazia ir a um bar à noite para ouvir poesia.

Não podia estar mais enganado. O bar estava repleto de gente. Gente jovem. Havia casais com filhos de colo!

Á hora prevista, os concorrentes subiram ao palco e perante um silêncio aclamatório, cada um ia dizendo de sua justiça.

Aquele espaço de diversão noturna, tinha-se transformado numa catedral da palavra. Depois de cada apresentação, toda a gente comentava e falava sobre o que tinha acabado de ouvir.

Devo dizer-vos que aquela foi uma das melhores experiências da minha vida.

Para mim, a rádio tem que ser precisamente isto.

Um ato de partilha, de comunhão.

A mesma coisa se passa com este livro.

O que está aqui são verdades absolutas?

Claro que não!

Mas são temas que merecem a nossa reflexão. São pontos de partida para uma sã discussão sobre o Mundo que nos rodeia e os mistérios que alimentam a nossa vida.

Uma das perguntas que me colocam recorrentemente é: como é que eu me lembrei de fazer uma coisa destas?

Bem…quem me conhece há mais anos, sabe da quantidade de coisas malucas que já fiz ao longo da vida.

Sabe que sempre gostei de viver “fora da caixa”.

Talvez por isso é que tenha “aterrado” um OVNI às 5 da manhã no cimo do Parque Eduardo VII.

Ou que aos 16 anos fizesse parte da Associação Portuguesa de Ilusionismo (e ainda faço), ou que tenha um Circo de Pulgas – o Circo de pulgas da Nônô.

Por isso é que fiz o mestrado aos 55 anos

E esteja agora a concluir o doutoramento!

Mas a verdade, é que tudo começou quando vi os primeiros 5 minutos do primeiro episódio da última temporada da série “Os Ficheiros Secretos”.

Aqueles 5 minutos, que resumiam toda a saga, alertaram-me para uma outra realidade. Um Mundo paralelo, que vivia aqui ao meu lado e para o qual não se dava muita importância.

Este foi o ponto de partida para a descoberta de histórias, muitas delas fantásticas e alucinantes que preencheram o meu dia-a-dia durante 8 meses.

Sim, a sua procura foi um ato solitário, mas o desenvolvimento da ideia teve em atenção as reações dos ouvintes e sobretudo o desenvolvimento que a página de Facebook do programa ia tendo dia-a-dia.

Á media que ia descobrindo novas histórias e entrevistando novos protagonistas, os ouvintes bombardeavam-me com novas abordagens, novos temas.

Sabem por exemplo que muitos dos batons que as senhoras usam, contêm uma substância que visa adormecer as mentes para que possam mais facilmente ser manipuladas pelas entidades que governam a Nova Ordem Mundial?

E sabiam que andam a matar os passarinhos e a substitui-los por drones que controlam os nossos movimentos diários?

Claro que nada disto é comparável com a morte de Paul McCartney.

Sim ele morreu e foi substituído por um sósia!

Contrariamente ao que aconteceu com Elvis e Michael Jackson, que continuam vivinhos da silva e a viver na Argentina.

Tudo isto é de facto fantástico, mas será que a nossa vida não o é também?

Basta que percamos uns breves minutos diários para nos questionarmos e tentarmos perceber os mistérios que nos rodeiam.

De onde vimos, para onde vamos e sobretudo qual o sentido da vida!

De facto, estamos rodeados de sinais.

A maior parte deles têm permanecido obscuros, longe de olhares profanos e por isso mesmo alvo das mais variadas interpretações.

Cada um de nós tem a sua.

Os números por exemplo, são um bom exemplo e este livro tem um capítulo sobre isso.

O problema é que essas traduções muitas vezes levam a desvarios, transformando esses lapsos comunicacionais em autênticas conspirações que regra geral têm como ponto de partida a tal… Nova Ordem Mundial, que está associada aos extraterrestres, quer eles sejam reptilianos ou Anunnakis!

Humberto Eco costumava dizer que a internet deu voz a uma legião de imbecis. As redes sociais estão repletas destas irmandades e a COVID 19 veio demonstrar que além do perigo sanitário que a ela está associado, existe um outro, igualmente perigoso e quiçá mais mortal, o da sanidade mental!

Não compete à DGS combater esta praga, mas a cada um de nós perceber qual o nosso papel aqui na Terra e de que forma é que podemos colaborar para o melhorar.

E meus amigos, do meu ponto de vista essa batalha ganha-se se falarmos.

UNS COM OS OUTROS

SEM DOGMAS

LONGE DE PRECONCEITOS IDEOLÓGICOS

Mas acima de tudo falar…

Nós nascemos como pedras brutas e se deixarmos aos outros a difícil tarefa de polimento, estaremos a abdicar daquilo que é mais importante, a nossa felicidade!

Eu não sou escritor

Não o pretendo ser. Não esperem num futuro próximo, nenhum romance ou autobiografia.

Este livro, resulta de um desafio que a Leya me fez, estava eu ainda a meio do programa, sem saber que temas iria ainda desenvolver.

A Rita Fazenda que mais parecia a minha orientadora de doutoramento, teve a calma suficiente para acompanhar os meus receios e sobretudo as dificuldades.

E o resultado está aqui.

Espero que o leiam e que o discutam com a mesma dedicação com que ouviram o programa de rádio.

Se assim acontecer, estou certo que dei por bem empregues as horas que passei a ouvir o meu Pai a gravar num velhinho gravador de bobines, nos longínquos anos 60, as “Produções Publicitárias de Reguengos”.

Porque se calhar foi assim que tudo começou.

Obrigado

 

 

 

08
Jan22

KWY - Com 3 Letrinhas Apenas...

escadas

Lourdes Castro, uma das fundadoras do grupo KWY, deixou-nos hoje.

Numa altura em que era dificill a subcultura, os membros do KWY souberam impor uma marca que perdurou até aos dias de hoje.

Razão pela qual partilho um trabalho que produzi em 2013.

Se tiverem tempo, leiam. Acho que vale a pena.

Revista “KWY”: três letras que levavam a mundos novos | Artes | PÚBLICO

Com 3 Letrinhas Apenas…

O grupo KWY e as redes sociais

 

         

Resumo

O advento das novas tecnologias veio alterar consideravelmente a forma como nos relacionamos em sociedade. Hoje em dia, já não é possível comunicar sem ter em consideração a expressão: “Rede Social”.

Rede Social ou “Redes Sociais”, passou a designar um novo paradigma, uma nova forma de relação, que tem como base o pressuposto de que a sociedade no seu todo, está ligada entre si (ou deveria estar) através de cabos e ecrãs.

Não estar “ligado” a uma “Rede Social” não pertencer a esta comunidade planetária, quase que parece um paradoxo civilizacional, tal é a pressão exercida pelos pares, sociedade de consumo ou mesmo os Mass Media, mas nem sempre foi assim.

No final da década de 50 do século passado, dois jovens artistas plásticos deixaram Portugal e criaram em Paris uma comunidade a que deram o nome de KWY, 3 letras que não existiam no alfabeto português.

Em pouco mais de 10 anos, este grupo de artistas cresceu e viu o seu talento ser reconhecido internacionalmente ao ponto de se tornar demasiado grande para continuar a existir.

A Internet, só foi “inventada” 30 anos depois!

 

Abstract

The advent of new technology has change dramatically the way we interact in society.  Nowadays, it’s no longer possible to communicate without regard to the expression: "Social Network".

Social Network or "Social Networking" came to designate a new paradigm, a new relationship, which is based on the assumption that society as a whole, is linked together (or should be) through cables and screens.

Not be "connected" to a "Social Network" does not belong to this planetary community, seems almost a paradox of civilization, such is the peer pressure exercised by the, consumer society or even the Mass Media, but was not always so.

In the late 50s of last century, two young artists have left Portugal and created a community in Paris that they named KWY, three letters that do not exist in the Portuguese alphabet. In just over 10 years, this group of artists grew up and saw his talent be recognized internationally to the point of becoming too large to continue to exist.

The Internet was only "invented" 30 years later!

 

 

Contextualização

 

É entendimento comum que a denominação de Rede Social pode ser atribuída a uma estrutura social composta por pessoas ou organizações, ligadas entre si por um ou vários tipos de relações e que partilham valores e objectivos comuns. 

A caracterização das chamadas Redes Socias, é no entanto mais abrangente. Podem obedecer a uma hierarquia horizontal ou vertical, quer ela possibilite um tipo de relacionamento sem qualquer tipo de hierarquias, ou pelo contrário, que esteja definida por uma relação de subordinação estruturada.

Mais abertas ou mais fechas, é o seu grau de “porosidade” que determinado o tipo de envolvimento social e a forma como se desenvolvem.

"Redes não são, portanto, apenas uma outra forma de estrutura, mas quase uma não estrutura, no sentido de que parte de sua força está na habilidade de se fazer e desfazer rapidamente."[1]

Tal como advoga Fábio Duarte[2] "Os limites das redes não são limites de separação, mas limites de identidade. (...) Não é um limite físico, mas um limite de expectativas, de confiança e lealdade, o qual é permanentemente mantido e renegociado pela rede de comunicações.", as redes são suficientemente flexíveis para permitirem, a entrada de novos usuários, mas ao mesmo tempo ser suficientemente estanque, de forma a poder conservar a sua identidade.

 A chamada “rede social” constitui-se hoje em dia como um novo paradigma da comunicação e tornou-se mais que um conceito, num termo vulgarmente utilizado para designar os novos media ou mesmo a Internet[3].

Se nos anos 70, um aluno tinha como finalidade máxima ser aceite socialmente no grupo dos mais populares, actualmente, é praticamente impossível socializar sem estar ligado a uma rede, nomeadamente o Facebook. No entanto e apesar de ser um termo que entrou recentemente no léxico corrente, a designação é bem mais antiga, com efeito, John Arundel Barnes começou a usar o termo sistematicamente em 1954, para mostrar os padrões dos laços, incorporando os conceitos tradicionalmente usados quer pela sociedade quer pelos cientistas sociais: grupos bem definidos (ex.: tribos, famílias) e categorias sociais (ex.: género, grupo étnico)4.

Em teoria (e apenas em teoria) os membros de uma determinada rede social caracterizam-se mais pelo tipo de relações que mantêm do que pelos símbolos que representam, tais como o género idade ou mesmo a classe social. A densidade deste tipo de relacionamento tende a ser variável em função da distância que separa os dois interlocutores (ou os dois campos em confronto) e o nível de protagonismo que assumem. Este fenómeno é explicado por alguns teóricos, os quais contextualizam estes tipos de relacionamentos em rede, através da existência de laços fortes e fracos 5.  

Por outro lado o sentimento de pertença e o medo de exclusão social6 , poderão fazer com que este tipo de relacionamento se torne mais numa obrigatoriedade social, do que propriamente numa logica inter-relacional, decorrente de uma lógica civilizacional.7

Temos portanto, como desígnio social a vivência em comunidade ou comunidades.

Curiosamente, o avanço tecnológico apropriou-se, (quase que ilegitimamente) deste conceito, que como já se viu é bem mais antigo do que possa parecer. Ao falar-se hoje em dia de uma

“Associação de Moradores”, a questão que vem à cabeça logo de seguida, é perguntar em que Facebook é que estão?

                                                          

  • Linton Freeman, The Development of Social Network Analysis. Vancouver:Empirical Press, 2006.
  • Em 1974, o sociólogo Mark Granovetter escreveu um artigo intitulado “The Strenght of Weak Ties”, que rompia de certa forma, com a sociologia tradicional. Granovetter propunha analisar o padrão de relação existente entre os indivíduos (grau de coesão das redes, fluxo de recursos entre os indivíduos como dinheiro, afeto, informação, etc.). A sua tese é a de que os indivíduos tomam decisões mais consistentes quanto mais fortes forem os vínculos às suas redes.

Sumariamente, Granovetter, defende que as relações entre indivíduos se gerem por dois tipos de ligações: “Laços Fortes” aqueles que desenvolvemos com familiares e amigos íntimos e “Laços Fracos” os que desenvolvemos com colegas de trabalho e de escola, ou amigos de amigos.

Laços Fracos, são aqueles que requerem um investimento menor ou mesmo nulo, desenvolvem-se em redes de baixa densidade e ligações a grande distância como a Internet.

Por oposição, os Laços Fortes, requerem uma maior intimidade, proximidade e intencionalidade para que se mantenham essas mesmas relações. Desenvolvem-se em redes de alta densidade e em ligações curtas. São no entanto mais sólidas!

  • A Teoria da Espiral do Silêncio procura explicar a influência da opinião pública na formulação de opiniões de cada indivíduo.

Os estudos desta teoria começaram na década de 60, com base nas pesquisas sobre efeitos dos meios de comunicação em massa e foram elaborados pela socióloga e cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neuman. Para esta socióloga, o medo de isolamento é o principal agente de formação da opinião pública. A tendência a expressar-se publicamente, a manifestar a sua opinião ou a guardar silêncio sobre ela, desenvolve um processo em espiral que de uma forma gradual vai formando a opinião dominante.

  • O Homem nasceu para viver em sociedade – Aristóteles (384-322 a.c.)

Com efeito, a vulgarização de écrans tornou-se tão radical, que é quase impossível, questionar uma outra realidade que não seja a digital, no entanto não é assim e nem sempre foi assim.

Lá longe… as luzes

 

Estamos em 1958.

Portugal atravessa, do ponto de vista político, uma das suas piores fazes de sempre. O estrangulamento cultural por um lado e a falta de liberdade de expressão por outro, levou a que muitos portugueses emigrassem para outros países, onde o seu trabalho fosse desenvolvido sem as ameias a que estava sujeito no nosso país.

A emigração foi com efeito um dos traços marcantes dos anos de ditadura em Portugal. Uns por razões políticas, outros por razões meramente conjunturais, resolveram abandonar o seu “status quo” e criar outro tipo de relacionamentos, outras raízes.

Entre esses portugueses, contam-se músicos, actores, escritores e pintores! Não eram os únicos, por certo, nem representavam a maioria da comunidade emigrante, mas eram uma parte significativa da cultura portuguesa.

 “Isolado na extrema periferia da Europa: separado dela pelo glaciar da Espanha franquista; entregue pelas potências ocidentais vitoriosas, em nome da ‘guerra fria’ contra o comunismo, à férrea mas discreta ditadura ultra-conservadora de Salazar, Portugal viu fecharem-se sobre si os ténues horizontes de mudança - não só política mas também cultural e expressiva, numa palavra, vital - que a derrota do nazi-fascismo deixara antever.”[4]

 

Por razões estritamente históricas, às quais se aliou o factor língua (na altura, o francês era a língua mais falada a ensinada nas escolas, por oposição ao inglês), Paris foi a cidade escolhida pela maioria destes emigrantes.

 

Historicamente, o café (brasserie) “Closerie des Lilas” era o ponto de encontro de tudo o que respirava arte e cultura em geral. Situado em Montparnasse, este simpático café foi paragem obrigatória para nomes como Émile Zola, Paul Cézanne e Théophile Gautier, Salvador Dali, Sartre, (Lenine jogava lá xadrez), Picasso e até mesmo Aquilino Ribeiro, que no final do século XIX aqui passou muitas tardes, no seu primeiro exílio parisiense.

Este “ponto de encontro “ geracional, vai mostrar-se decisivo para os artistas portugueses, senão vejamos;

No final de década de 50, o desejo de liberdade criativa, mas sobretudo o isolamento e atraso socioeconómico, aliado a uma vontade de alcançar novas experiências formais, levaram a que René Bertholo e Lourdes Castro[5], se tornassem expatriados e rumassem a Paris, com o objectivo de estabelecer contacto com o que se passava internacionalmente a nível artístico!

 

O primeiro fruto dessa nova aposta, veio a chamar-se KWY.

A KWY era uma revista, e partiu de uma ideia original do pintor René Bertholo, com o intuito de constituir um meio invulgar de comunicar com os amigos, ou por outras palavras, pretendia fazer uma espécie de “carta personalizada aos amigos”. De facto ser mais original do que isto é difícil, já que a revista era impressa à mão em serigrafia e com uma tiragem muito reduzida.[6][7] 

Da partilha de experiências e sobretudo a fruição do espaço colegial que era na altura o café “Closerie des Lilas” nasce o relacionamento com outros artistas nacionais, nomeadamente, Gonçalo Duarte, José Escada, Costa Pinheiro, João Vieira, e ainda o alemão Jan Voss e o búlgaro Christo.

É este colectivo que durante 8 anos, edita e forma a comunidade KWY, 3 letras que não existiam no alfabeto português e que no entender de Mário Cesariny são nada mais, nada menos do que outra maneira de dizer “Ká Wamos Yndo” .

 Esta forma de assumir o “ser diferente” é caracterizada por um deslocamento que é ideológico mas também físico[8], numa clara demonstração de que o desejo do grupo era o de se assumir como excepção, no árido panorama artístico português da época12.  Podemos portanto afirmar que, a razão principal para este determinismo ideológico, está acima de tudo numa vontade de reconhecimento pelos seus pares.

Não faz parte do objecto desta análise, o desenvolvimento artístico do KWY, mas do ponto de vista analítico, importa referir que ao longo da existência do grupo, foram editadas 12 revistas, com uma tiragem que variou entre os 80 (!!!) e os 500 exemplares, o método de impressão foi quase sempre (a partir do nº 8 foi utilizada uma técnica mista de fotogravura e colagens) o serigráfico e obteve a sua projecção internacional com os dois últimos exemplares, os quais foram distribuídos e vendidos em Munique, Basileia, Londres e algumas cidades americanas, como Nova Iorque.

Dos 8 membros iniciais, a KWY alargou a sua lista de colaboradores para nomes como Vieira da Silva, Cargaleiro, António Ramos Rosa, Mário Cesariny, Pedro Tamen e Luiz Macedo entre outros.

Esta diferença de conceitos artísticos, nunca foi porém um obstáculo á efectiva identidade do grupo, tal como se podia ler no editorial da edição nº 6 de 1960:

“Embora unidos por um mesmo espírito, que julgamos ser o do nosso tempo, as concepções particulares e os pontos de vista que os vários colaboradores nos propõem nem sempre terão o nosso acordo unânime. Nisso porém, não vemos qualquer desvantagem, mas antes o pretexto para debates e controvérsias com os quais todos temos a aproveitar e que darão à nossa revista o carácter francamente aberto que gostaríamos que ela tivesse”.  

 

O verdadeiro traço de união do grupo, era de facto a diferença estética, o pluralismo perante a arte o tempo e a solidariedade não coactiva entre artistas editores e colaboradores, ou seja, a inventividade coabitando com o divertimento, o jogo[9].

Foi este jogo permanente de palavras e cores, este desafio constante pela “utopia possível” que gerou e desenvolveu esta comunidade tão sui generis. Curiosamente, para alguns “leigos”[10] esta unidade na diferença nunca foi bem entendida…

O fim anunciado do grupo e consequentemente da revista, foi resultado de uma decisão unânime de todos os artistas. O grupo tinha crescido demasiado, deixando pouco espaço e tempo para os seus projectos pessoais e buscas de novos conceitos.

No epitáfio da edição nº12[11] podia ler-se: “Au moment de mourir, il prit sa guitare et se mit à jouer” o que em tradução livre poderemos traduzir por ““No momento de morrer, ele pegou na sua guitarra e pôs-se a tocar”.

 

A Praga Maravilhosa

 

 “Eram todos colombianos, eram todos jovens e eram todos desconhecidos e todos, mais ou menos, andavam a cair de fome”. Estas palavras de Gabriel Garcia Márquez, simbolizam bem a identidade que personificou uma das maiores comunidades artísticas que escolheram

Paris como “Casa Mãe”, a tal ponto que com o passar dos anos, dessas quatro “virtudes” apenas restou uma, a nacionalidade.

A designação “Praga Maravilhosa” foi atribuída pelo próprio Gabriel Garcia Márquez e estava relacionada com a teimosia histórica do povo colombiano.

A exemplo do que aconteceu com o grupo português KWY, também os colombianos procuraram outros percursos, outras fronteiras onde pudessem conquistar o céu que tanto ambicionavam. Formaram uma família, unida e entusiasta e foram atraídos por Paris como as traças pela luz. Quase sempre sem dinheiro, vaguearam pelas ruas de Montparnasse, em busca de uma oportunidade. A pintura, para este grupo de artistas, converteu-se num cometimento heróico, num acto de fé.

Tal como aconteceu na década de 60, também desta vez se configurou um grupo, que com o passar do tempo, estabeleceria um momento fulgurante e um valioso contributo para o património da arte colombiana.  

Esta “praga” era composta por…27 artistas!

Nomes como Constanza Aguirre, Homero Aguilar, Ramiro Arango, António Barrera, Dario Morales, Luis Caballero, Heriberto Cogollo, Gregório Cuartas, Beatriz Duque, Emma Reyes, Francisco Rocca e Luis Fernando Zapato, e sobretudo Patricia Tavera, mostraram que em plena década de 80 ainda era possível seguir as pisadas dos “Pais Fundadores” que 20, 30 anos atrás deambularam pelas mesmas ruas, beberam nos mesmos cafés e partilharam os mesmos quartos.

A Praga Maravilhosa enquanto colectivo já não existe, mas os seus fundadores reúnem-se regularmente quer para promover exposições colectivas, quer para celebrar o sentido único da vida; Viver em Sociedade.

Conclusões

 

Num tempo em que não havia Internet, as relações interpessoais assumiram o mesmo tipo de pressuposto que suportam as actuais redes digitais.

O KWY por exemplo, partiu de uma relação estabelecida em “Laços Fortes” e encontrou no relacionamento de “Laços Fracos” a forma de se expandir e difundir a sua mensagem. Tal como agora, a partilha de documentos, de informação, foi determinante para a formação do grupo, o qual cresceu até se tornar incomportável a sua gestão.

Apesar de terem percursos e personalidades diferentes, estas diferenças, eram de facto o polo aglutinador, o elemento idiossincrático que justificava a existência da comunidade.

Tal como Noelle Neumann preconiza, foi o “sentimento de pertença” que levou René Bertholo e Lourdes Castro, a irem contra a corrente e escolher outra realidade para se implantarem. No fundo, um desejo legítimo, o de serem aceites pelos seus pares internacionais, o que aliás, veio de facto a acontecer.

Apesar de terem sido feitas algumas exposições retrospectivas, e editado algumas obras sobre o grupo, o KWY já não existe.

Separados no tempo por 20 anos e ainda sem Internet, “ A Praga Maravilhosa”, estabelece-se em Paris e adopta os mesmos códigos de relacionamento que o grupo português. A diferença maior e talvez a mais significativa, é que o aparecimento da “Rede” oferece outro tipo de oportunidades aos seus membros, os quais apesar de não existirem enquanto grupo, conseguiram perpetuar o espirito inicial através da partilha constante de informação, a qual se consubstancia na realização frequente de exposições colectivas.

O sentimento identitário da “Praga Maravilhosa” foi o mesmo que esteve na génese da criação do KWY. 

A questão final que se colca é saber até que ponto, é que a variável chamada “internet” teria alterado o ciclo de vida do KWY, ou seja, teria acelerado o seu desaparecimento, ou pelo contrário, ainda hoje existiria.

 

Bibliografia

 

BRAZ, André – “Sombra Projectada de KWY” , in FREIRE, Sofia Costa; LIMA, Patrícia e VIEIRA, Vítor Pires (Coord.) – “Nouveaux realistes / KWY: Obras em colecções portuguesas”. Edição Proteína, (2009)  

 

CABRAL, Manuel Villaverde  cit. em ACCIAIUOLI, Margarida (coord.) – “KWY: Paris

1958-1968”. Lisboa: CCB: Assírio & Alvim,  p.54 (2001)

 

CANDEIAS, Ana Filipa Osório – “A Revista KWY”, in ACCIAIUOLI, Margarida (Coord.) –

“KWY: Paris 1958-1968”. Lisboa: CCB: Assírio & Alvim, p.88 (2001)  

 

CAPRA, Fritjof – “Vivendo Redes”. In: Duarte, Fábio; Quandt, Carlos; Souza, Queila. O Tempo Das Redes, pp. 21/23. Editora Perspectiva. (2008)

DUARTE, Fábio e Frei, Klaus – “Redes Urbanas”. In: Duarte, Fábio; Quandt, Carlos; Souza, Queila. O Tempo Das Redes, p. 156. Editora Perspectiva. (2008)

 

FRAZÃO, Joana Rita Galhardo – “ Lourdes Castro: Apontamentos para a Compreensão da Obra”  Faculdade de Letras da Universidade do Porto, , p.36 (2012)

FREEMAN, Linton – “The Development of Social Network Analysis”. Vancouver: Empirical Press, (2006)

GASTÃO, Ana Marques, in Diário de Notícias 15 de Junho de 2005

GRANOVETTER, Mark - “The Strenght of Weak Ties: A Network Theory Revisited". (1983)

KAPLAN Andreas M., HAENLEIN Michael  - “Users of the world, unite! The challenges and opportunities of social media, Business Horizons “ (2010)

NEVES, Joana – KWY: três letras que não têm lugar no Alfabeto Português, in Arte Ibérica, nº45/Abril, p.8 (2008)  

NOELLE-Neumann, Elisabeth – “The spiral of silence. A theory of public opinion – Our social skin”, Chicago: University of Chicago Press (1984)

[1] [Duarte, Fábio e Frei, Klaus. Redes Urbanas. In: Duarte, Fábio; Quandt, Carlos; Souza, Queila. (2008). O

Tempo Das Redes, p. 156. Editora Perspectiva

[2] Capra, Fritjof. Vivendo Redes. In: Duarte, Fábio; Quandt, Carlos; Souza, Queila. (2008). O Tempo Das Redes, pp. 21/23. Editora Perspectiva 

[3] Andreas Kaplan e Michael Haenlein definem “mídias sociais” como "um grupo de aplicações para a Internet construídas com base nos fundamentos ideológicos e tecnológicos da Web 2.0

[4] Cabral, Manuel Villaverde cit. em Margarida Acciaiuoli: 2001, p.54

[5] Frazão, Joana Rita Galhardo – “ Lourdes Castro: Apontamentos para a Compreensão da Obra”  Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012, p.36

[6] CANDEIAS, Ana Filipa Osório – A Revista KWY, in ACCIAIUOLI, Margarida (Coord.) – “KWY: Paris

[7] -1968”. Lisboa: CCB: Assírio & Alvim, 2001, p.88.  

[8] BRAZ, André – Sombra Projectada de KWY, in FREIRE, Sofia Costa; LIMA, Patrícia e VIEIRA, Vítor Pires

(Coord.) – “Nouveaux realistes / KWY: Obras em colecções portuguesas”. Edição Proteína, 2009.   12 NEVES, Joana – KWY: três letras que não têm lugar no Alfabeto Português, in Arte Ibérica, nº45/Abril, 2008, p.8.  

[9] Gastão, Ana Marques, in Diário de Notícias 15 de Junho de 2005

[10] Nos anos 60, António Rodrigues (crítico de arte), não quis expô-los todos juntos, alegando não existir homogeneidade entre os seus trabalhos, quando foi precisamente o grande respeito pelas diferenças individuais que os manteve unidos. (in. CETI)

[11] Esta edição, a exemplo da anterior, foi totalmente composta em francês. No entender de Ana Filipa Osório Candeias, este abandono do português como língua de redacção é o primeiro sinal de um desinteresse pelos valores culturais portugueses por parte dos editores, que fez com que a revista se pudesse então explicitar como publicação internacional, francófona por conveniência editorial, redefinindo do mesmo modo, o seu público: não já um fantasmático público português mas uma recepção heterogénea de artistas, amadores e galeristas sediados em Paris e até noutros centros europeus onde a revista se vende ‘à comissão”

 

 

07
Abr21

A MORTE NÃO MORRE SOLTEIRA! (deixem-me ouvir os vosso corações)

escadas

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A solidariedade não se apregoa, PRATICA-SE!

Coisa que a maior parte dos políticos desta nova geração não faz a mínima ideia do que isso é.

Ser solidário é olhar para o lado e importar-se com o que se vê e não descansar enquanto essa situação não mudar.

Ser solidário é estender a mão, mesmo que a outra esteja suja.

Bem sei que isto parecem palavras vãs, mas acreditem qua há pessoas assim.

Algumas dessas pessoas optaram por ser políticos. Decidiram que a sua vocação era servir a sociedade e lutar por ela, por aqueles que não têm voz.

Tive a felicidade de conhecer algumas dessas pessoas. Tive a felicidade de partilhar a minha vida com algumas dessas pessoas.

Já o disse várias vezes; aquilo que sou hoje, devo-o muito, a essas pessoas. Foram elas que me ensinaram a olhar para o lado, a partilhar e sobretudo a lutar.

Nunca mais me esqueço da primeira noite que passei no Largo do Rato, foi em 1985. O PS tinha sido derrotado em toda a linha. O desânimo era total. Naquela noite, ninguém se aproximou de nós para uma simples palavra de alento. O Júlio Isidro era o único que se mantinha firme e que se tinha mantido perto de toda a equipa; "cumprimos com o nosso dever, demos o nosso melhor"!

Olhando agora para trás, até parece que as coisas foram todas muito fáceis, simples até.

Mas não foram. Ser-se amigo de todas as horas não é fácil, é quase um desígnio até. Ter o telemóvel disponível para atender uma voz desesperada e em busca de auxilio, é algo que nós sabemos não estar ao alcance de todos.

O nosso sofá é bem mais confortável que as desgraças alheias!

Por exemplo. Uma certa tarde, já nem me lembro do ano, este vosso amigo lembrou-se de abrir o microfone e perante um Coliseu dos Recreios a rebentar pelas costuras, proclamar a frase: "o facto das OGMA terem reparado helicópteros indonésios é um verdadeiro atentado à pátria"! Na altura a coisa resultou muito bem, o Coliseu até parecia que vinha abaixo, o pior foi no dia seguinte quando o Pacheco Pereira, na altura deputado do PSD, se lembrou de tirar fotocopias da primeira página da Capital que trazia a letras gordas a frase que eu tinha proferido na véspera. A Assembleia da Republica entrou em efervescência e o António Guterres que naquela tarde se encontrava no largo do Rato, teve que ir de urgência para o hemiciclo para pedir desculpas em meu nome por aquilo que tinha sido dito!

Naquele final de tarde, vomitei tudo o que tinha e ... não tinha. A bílis veio cá acima mostrar de cor era feita, várias vezes.

Só duas pessoas me mostraram solidariedade naquele dia. Uma foi o Joaquim Raposo, a outra foi Jorge Coelho.

Se me arrependo do que disse naquele domingo? sinceramente não. Se fosse hoje provavelmente teria dito a mesma coisa.

Verdade seja dita que nunca ninguém se lembrou de supervisionar os meus textos antes de os reproduzir ao microfone. 

Já com Sócrates como secretário Geral do PS, entendi que devia colocar à consideração das pessoas que coordenavam o seu gabinete, um texto que acabara de redigir. O Pedro Silva Pereira foi o primeiro (e único) a dar a sua opinião. Não leu e respondeu-me: "era o que faltava!" Depois disso senti-me legitimado para não questionar mais ninguém. 

Mas voltando a Jorge Coelho.

Só quem privou com ele, pode perceber o que significava, conviver com ele.

O Jorge era muito mais que um político, era um amigo, daqueles que a gente tem prazer em convidar lá para casa para comer uma chouriça assada, ou para o batizado do filho!

Por estes dias, muitos se vão lembrar das suas frases emblemáticas, tipo "quem se mete com o PS...leva", mas eu prefiro recordar a sua faceta mais dócil, afável e introspetiva.

Na noite em que o PS ganhou as eleições com António Guterres, fizemos a viagem de carro desde o Altis até à Torre de Belém; eu ele e o Pina Moura. Á nossa espera estava o Nuno Teixeira, que tinha andado na "estrada" com toda a equipa. Foi uma viagem épica, desde o Hotel Altis até Belém, parecia que estávamos todos embriagados, mas eu juro que nenhum de nós bebeu uma pinga de álcool!

lamentavelmente, destes protagonistas todos e que representam muito do meu legado, o único que ainda cá está sou eu.

Tenho muitas e boas memórias do Jorge.

Conhecem algum ministro que estaria disposto a assumir uma culpa que não era sua e com isso anunciar a sua demissão enquanto ministro de estado? 

É por estas e por outras que eu digo aos meus filhos:

"sejam o que quiserem ser. Lutem por isso, e quando se olharem ao espelho sejam um Jorge Coelho"

Para mim foi um privilégio ter partilhado parte da minha vida com o Jorge e sei que comigo estão muitos outros amigos que tiveram essa felicidade.

Obrigado Jorge!

08
Jan21

OS DIAS DO CAPITÓLIO

escadas

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Miguel Sousa Tavares disse hoje na TVI que André Ventura não tem substrato político e que o seu discurso só serve para as redes sociais e conversas de café.

Tenho por Miguel Sousa Tavares com quem trabalhei e aprendi muito, uma profunda admiração, mas este seu comentário é a justificação para a popularidade do líder do Chega.
A única razão que suporta a existência de políticos como André ventura é precisamente a leviandade com que se analisam estes fenómenos.
E digo mais.
Os verdadeiros culpados pela existência do Chega são os partidos políticos que se encontram na esfera do poder. E neste circulo incluo António Costa enquanto líder do PS, os dirigentes nacionais do maior partido do poder, Rui Rio enquanto aprendiz de opositor ao governo, o próprio presidente da Assembleia da República e a restante esquerda parlamentar. Excluo deste grupo o PAN por entender que este partido/movimento que padece de uma crise de identidade, se encontra ainda no limbo direita/centro direita.
Sejamos claros.
O chega só existe porque foi ocupar um espaço deixado vago pelo PRÓPRIO Partido Socialista. Aliás um dos grandes problemas da nova classe política, é entender que sabe tudo, tem razão em tudo, tem certezas sobre tudo e não tem a humildade suficiente para reconhecer que tem deficiências estruturais e ideológicas. Acham-se os donos da democracia e que esta nunca estará em causa porque...eles existem!
Abominam as redes sociais e são incapazes de reconhecer a extraordinária importância e influência que elas exercem na nossa sociedade. Enquanto meio que carece de mediação, as redes sociais são o pântano ideal para a proliferação de ideias mais ou menos humanitários. É neste mesmo pântano que se movem precisamente algumas mentes com ideias pouco recomendáveis e que assim dão voz a todos aqueles que se viram excluídos por esses dirigentes políticos e que se acham os únicos iluminados desta jovem democracia.
É a mesma classe política que não percebe a razão pela qual cada vez há menos portugueses a exercerem o seu direito de voto, mas apesar disso continuam a olhar para o além e a meditarem sobre esta questão, como se ela fosse por si só transcendente à sua conduta.
Os debates com André ventura mostraram a ingenuidade desta classe política. Não moram cá, nunca moraram cá e não fazem ideia do que os portugueses realmente ambicionam.
Por exemplo, as várias tentativas de André Ventura para arrastar Paulo Pedroso para a lama da sua própria conduta, só podiam ter uma resposta por parte de Ana Gomes; deixá-lo a falar sozinho. Responder-lhe, é apenas continuar a dar-lhe o oxigénio que precisa para continuar à tona de água.
O respeito é algo que se exige nestas circunstâncias e os resultados destas próximas eleições vão mostrar precisamente isso.
À esposa de César não basta ser honesta, tem que parecer ser honesta!
Disse.
21
Dez20

Os Operários do Natal

escadas

"O dinheiro pouco importa, o que importa é a verdade e a prenda mais valiosa é a prenda da amizade.   Quem faz das tristezas forças e das forças alegrias constrói à força de amor um Natal todos os dias." 

Ary dos Santos

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Tenho muitas e boas recordações do Natal. Desde os presépios que "inventava" no Alentejo, até às representações que levava a cabo com minha prima Edite nas noites de consoada, com a família em volta da lareira recolhida do frio que se fazia sentir na Maceira,  a pequena aldeia da minha avó, Na verdade estávamos todos dentro da lareira porque aquilo era enorme!

A construção do presépio constituiu sempre um dos pontos altos do meu Natal. Nunca foram pequenos e houve um ano que construi um anexo ao lado da sala para poder comportar um projeto que se fosse hoje podia competir com o presépio das Amoreiras por exemplo.

Quando o meu filho mais velho nasceu, o presépio transformou-se num dos pontos altos do ano. Era uma festa!

a irmã Leonor segue-lhe as pisadas.

Os presépios já me fizeram percorrer os quatros cantos de Portugal. Conheci e bem o presépio Cavalinho que (infelizmente já ardeu), o de Monsaraz, Vila Real de santo António, Penela, Almeida, Estremoz e tantos, tantos outros.

Lembro-me de muita coisa. Lembro-me por exemplo da minha avó a fazer filhoses sem fim, mexendo a massa num enorme alguidar de barro que pesava toneladas. Lembro-me de pendurar a meia na chaminé de colocar o sapatinho por baixo.

lembro-me do meu chegar a casa com um pinheiro enorme, daqueles verdadeiros que cheiram a resina e tudo e de passar as noites a desenhar a a recortar estrelas douradas que iriam encher toda a copa.

Naqueles tempos não havia Pai Natal. Celebrava-se o menino Jesus!

Havia a festa do trabalho dos Pais, que contemplava sempre um presente condigno.

E havia o Circo e as canções!

Mais tarde e já quase adulto, conheci um grupo de amigos que se intitulavam "Os operários do Natal". foi no Natal de 1976. Nunca fiz parte daquela trupe apenas no encontrávamos por feliz coincidência. Foi aí que conheci pela primeira vez a Ana Bola, ou melhor será dizer a palhaça Bolona. Não sei se nessa altura já cozia os ovos em água das pedras, mas lembro-me que o espetáculo era apresentado pelo Júlio Isidro, mas sei que que quando os vi pela primeira vez, pensei para mim mesmo "mas onde é que este tipos andaram metidos toda a minha vida????" Nunca lhes disse nada, mas eu, que era um interveniente direto do espetáculo (e era pago para isso) era de certeza o espetador mais atento. Ainda hoje sei aquilo tudo de cor.

O Natal era também sinónimo de bacalhau, coisa que eu não apreciava muito e de couves, daquelas verdes e que sabiam mesmo a couve!

Lembro-me de ir à Baixa com os meus Pais, ver a  montra do Grandela, que na altura tinha a decoração mais espetacular e do cheiro a algodão doce que enchia o largo do Rossio (alguém se lembra desses cheiros?) .

Hoje já não se pode, mas antigamente, ainda o mês de Novembro não tinha acabado e já eu tinha ido a Sintra apanhar enormes Lençóis de musgo,  daqueles que cobriam os penhascos da Serra mágica. Quando o Natal era passado na Maceira, a tarefa era facilitada. O difícil era transportar aquele manto todo e dar-lhe uso!

Apesar do Natal deste ano ser diferente, espero que em breve possamos todos retomar os velhos hábitos e olhar para os símbolos e reconhecer o seu verdadeiro significado.

O Natal ou o nascimento da pequena luz que deveria existir dentro de todos nós, está por estes dias condicionado pela exigência consumista que ofusca o seu verdeiro significado.

Este ano pedem-nos para usar máscara, como se isso fosse uma coisa estranha. A maior das pessoas com que nos cruzamos diariamente esconde-se atrás de uma máscara, de hipocrisia, de cinismo, de indiferença.

Mesmo que no próximo ano nos digam que podemos finalmente respirar para cima uns dos outros e tocarmo-nos, estou certo que infelizmente, muitos irão optar por continuar escondidos atrás de uma máscara que esconde aquilo que de facto são, ou não são.

Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que vai mudar alguma coisa, mas não me cansarei de lutar para que as coisas não fiquem na mesma.

Mudem!

Um Santo e feliz Natal para todos.  

 

 

29
Jul20

Somos cada vez menos

escadas

 

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Ás vezes tenho inveja daquelas pessoas que se estão nas tintas para o que se passa à sua volta. 

Não consigo fica indiferente com o sofrimento dos outros. 

Não consigo pura e simplesmente esquecer ir "beber um drink".

Não sei como vocês reagem aos sobressaltos da vida, mas para mim é como se um desaparecesse um bocado de mim.

Sabem aquelas pessoas que atendem o telefone quando a gente liga????? Pois...são cada vez menos e isso preocupa-me, deixa-me inseguro, triste.

Sei que a vida é uma coisa curta e a morte é inevitável, mas a ideia de ter cada vez menos gente amiga a quem se possa pedir ajuda, deixa-me um vazio que dificilmente é preenchido.

Para mim o conceito de família sempre foi muito lato. Família são aqueles que comigo partilham e partilharam a minha vida, os meus problemas as minhas angustias. Família são aqueles que atendem o telefone e não negam um pedido de ajuda! 

Os outros são apenas conhecidos, gente que por esta ou por aquela razão se cruza no nosso caminho.

Posso dizer que ao longo da minha vida tive o privilégio de conquistar muitos familiares, alguns nunca se aperceberam disso, mas foram fundamentais para o meu crescimento e para me afirmar como Homem.

Tento ser uma pessoa justa e recta, solidária e fraterna e partilho os meus valores com todos aqueles que me rodeiam.

A vida é mesmo isto; viver em comunhão e partilha.

Quando o Zé Abreu partiu há uns anos, achei que o Universo era injusto. A partida do Jaime Fernandes deixou-me órfão e a pouco e pouco comecei a perceber, que de facto somos apenas uma cambada de ignorantes e que ao longo da vida tentamos apenas decifrar o que afinal não tem tradução possível.  

A morte não é injusta, nós é que tornamos a nossa existência numa amalgama de relações egoístas!

Cada vez que deixarmos de olhar para o lado e fixarmos a nossa existência apenas no nosso umbigo, estamos a contribuir para que a morte de alguém seja dolorosa e sem significado.

Quantas vez ao longo dia é que paramos para pensar????

O texto vai longo e calculo que pouca gente o vá ler na íntegra, mas eu precisava de fazer este desabafo.

Mas se por acaso chegaram até aqui...reflictam, parem para pensar e olhem para o lado.

somos cada vez menos...

19
Nov19

A MORTE NUNCA EXISTIU

escadas

Tal como a maioria dos meus amigos da altura, com excepção talvez daqueles cujos pais tinham actividade política, nenhum de nós tinha uma cultura musical digna desse nome. Em Abril de 1974 o meu universo musical resumia-se aos Genesis, Mike Oldfield, Black Sabath e Pink Floyd. Quanto a música portuguesa…NADA!

Uma semana após a revolução, um casal que vivia mesmo ao lado dos meus pais convidou-me para ir lá a casa ouvir umas músicas novas. Foram eles que me mostraram pela primeira vez o álbum “Margem de Certa Maneira” do José Mário Branco. Não será exagero dizer que nos dias seguintes devo ter ido lá a casa ouvir o disco mais de 20 vezes. Até ter gravado uma cassete com o dito disco, era esta a minha rotina diária: chegar do liceu, arrumar a mala e ir par casa deles ouvir José Mário Branco. Havia qualquer coisa naquela dialética que me inspirava, talvez fosse a musicalidade a imprevisibilidade das melodias…

Foi com José Mário Branco que aprendi termos como “Luta de classes” “justiça e igualdade” e “serventio a trabalhar” e por isso também eu lutei para meter um pauzinho na engrenagem por que queria ter companheiros de viagem.

Depois da “Margem de Certa Maneira” veio o “Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades” (apesar de ser anterior) e com ele todo um novo mundo, que incluía o Sérgio Godinho, Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira e o António Carlos Jobim. Foram dias, semanas, meses, em que amadureci muito. Apaixonei-me por aquelas letras por aquela poética amarga e notoriamente escrita por pessoas que tinham sofrido, coisa que eu também não fazia ideia o que era: sofrimento!

A música de José Mário Branco acompanhou toda a minha vida. As cassetes com a discografia dos Genesis passou a ter sempre como companhia estes dois álbuns, cresci com eles. Naqueles meses de 1974 estava longe de pensar que um dia mais tarde viria a conhecer e a trabalhar com ele(s). De facto em 1990 fui convidado pelo próprio a criar o logotipo da UPAV “União Portuguesa de Artistas de Variedades” que tinha à frente além do Zé Mário, o Carlos do Carmo. Na altura produzi uma caixa de discos, tipo colectânea da qual faziam parte a Dina a Maria Guinot o Jorge Lomba, a Alexandra e obviamente o Zé Mário e a Manuela de Freitas.

A UPAV era uma espécie de agência de artistas que visava promover a carreira artística dos seus associados. Carlos do Carmo e o Zé Mário Branco depositavam muita fé neste projecto e posso afirmar que me tirou muitas horas de sono; era o meu ídolo que ali estava, a minha bandeira, apesar disso nunca lhe confessei a profunda admiração que sentia por ele.

Faz parte da minha lista de coisas a fazer antes de me reformar, realizar um programa de rádio onde possa passar o seu “FMI”, se não sabem do que estou a falar, procurem no youtube e deliciem-se com uma das obras primas da música portuguesa! A obra de José Mário Branco era como um filme, imprevisível, belo, apaixonante e esta paixão cativa quem o ouve. Ainda hoje quando preciso de me animar coloco o som bem alto e ouço “A Cantiga é Uma Arma” do “GAC”, aliás este tema motivou a autoria (em colaboração com o Viriato Telles) a produção (e a apresentação já agora) de um programa gravado ao vivo no Largo do Carmo em Lisboa, que a RTP emitiu em 1997 e que assinalou as comemorações da Revolução de Abril de 1974.

Este é o melhor elogio que posso fazer nesta altura à memória e à obra de José Mário Branco: quando a minha filha nasceu, elaborei uma play list de músicas para a acompanhar à noite e a ajudar a adormecer. Uma dessas músicas era a “Ronda do Soldadinho”.

 

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