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OS DIAS DA RÁDIO

por escadas, em 13.02.17

 

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Em dias como o de hoje, é costume dizerem-se coisas como “a rádio é a minha paixão” ou “a rádio é a minha vida”.

Nasci para a rádio numa noite quente (tórrida) de verão na Amareleja, Alentejo profundo. Na telefonia do carro (era assim que se chamava na altura) ouvia-se a voz de Hermenegildo Gomes responsável na Antena 1 pelo programa “Separata Especial de Sábado”.

Naquela noite disse para mim mesmo; eu quero ser como este gajo. É isto que eu quero fazer na vida!

Os episódios que se se sucederam até ter chegado finalmente à dita rádio, (que acabou por não ser a “tal” Antena1 mas sim a Rádio Renascença), são matéria para outro dia, mas foi um percurso nada fácil e cheio de incidentes, os quais só reforçaram a minha certeza de que era de facto ali atrás de um microfone, no anonimato do estúdio, que eu me realizava como pessoa.

Por tudo isto em dias como o de hoje, prefiro parafrasear a Ana Catarina Santos; A rádio é o sangue que me corre nas veias!

É difícil explicar esta ligação quase umbilical, só mesmo quem vive de e para a rádio a consegue perceber sendo que esta perceção é nos dias que correm cada vez mais difícil.

A rádio de hoje vive na sombra de um divórcio litigioso que ocorreu na primeira década dos anos 60. A determinada altura, o seu grande amor o ouvinte, descobriu uma nova paixão, a televisão e sem dó nem piedade virou-se para o seu rádio a pilhas e exclamou: o problema não és tu sou eu!

Desde aí, a rádio tentou ultrapassar o trauma de ter sido trocada pela “outra” e nessa ansia de se reencontrar cometeu vários erros sendo que o maior deles foi ter encarado a própria televisão como uma concorrente.

Comparar a televisão com a rádio é a mesma coisa que comparar um livro com um filme. São campeonatos diferentes, são duas realidades que eventualmente se completam, mas que nunca entram em competição entre si.

O grande segredo da rádio, reside no mistério, na interpretação que o ouvinte faz daquilo que ouve, tal como num livro ou até mesmo numa pintura, a ausência de imagem faz com que a experiencia de quem ouve seja individualista, própria de cada um.

É uma experiência sensorial única!

É óbvio que a rádio que se faz hoje está a anos-luz da telefonia que fazia parar o Portugal nos anos 70, quando a seleção nacional de hóquei em patins jogava por exemplo.

É meu entendimento que precisamos de mais suor no rádio, mais transpiração e menos computadores.

A rádio é hoje em dia uma enorme “jukebox” com critérios discutidos entre os algoritmos de uma aplicação informática que gere a playlist da estação.

Ouçam a emissão da TSF no dia do incendio do Chiado, a reportagem do João Paulo Baltazar quando narrou em direto o confronto entre polícias secos contra polícias molhados em pleno Terreiro do Paço e perceberão o que quero dizer.

Podia relembrar aqui algumas das vozes que nos marcaram ou programas que fizeram história, o Pão com Manteiga, o PBX, o Página 1, o Café Concerto, o imortal Morrison Hotel, a Febre de Sábado de Manhã, A Cor do Som e tantos, tantos outros que preencheram o nosso imaginário, mas neste dia gostaria de lembrar dois nomes, apenas dois, e neles espelho todo um universo de gente que tinha a rádio nas suas veias e que viveram de e para a rádio.

Emídio Rangel e Jorge Perestrelo

Obrigado aos dois

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