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EM DEFESA DA MEMÓRIA DE LISBOA

por escadas, em 11.03.16

Sou um apaixonado por Lisboa, sempre fui.

Guardo memórias de uma Lisboa boémia, com bares de cores obscuras, vedados por portas que só se deixavam abrir a clientes menos dados ao chamado “main stream”. Casas noturnas em que mal se vislumbrava a cara dos clientes, tal era o fumo que inundava o espaço.

Ainda hoje guardo com melancólica saudade, o cheiro e as cores de uma pequena leitaria que existia mesmo no início da Rua do Alecrim. Era aí que parava antes de empreender a subida até à Rua Ivens 14, poucos minutos antes da meia-noite. Era aí que comia a minha última bucha, antes de entrar ao serviço na Radio Renascença. Foi aí que conheci a Joana, rapariga de meia idade que se prostituía nos bares do Cais do Sodré. A Joana tinha uma lista com a tabela dos barcos, que carregados de marinheiros escolhiam Lisboa periodicamente como ponto de paragem. Tal como eu, a Joana também tomava a sua última bucha naquela leitaria, antes de entrar ao serviço no Jamaica e no Escandinávia, Niagára ou Roterdão. A Joana conhecia de cor, as cores dos néons de toda essa fauna.

 

noite2.jpg

Confesso que a primeira vez que entrei no Escandinávia, tinha as pernas a tremer. O ambiente era pesado. A “concorrência” era pesada, alma era leve (tal como a carteira). Valeu-me na altura a Joana que me apresentou a Maria, mulher corpulenta com mais de 100 kg e que ambicionava amealhar o dinheiro suficiente para abrir uma banca de jornais, era um doce de mulher. Também havia uma outra amiga que sonhava com uma peixaria! Estórias de vida que só por si davam um livro.

Mas não recordo apenas o Cais do Sodré. Lembro como se fosse ontem a primeira vez que entre no Maxime, já depois de completar 18 anos. O curioso desta história é que trabalhei durante alguns anos com muitas das artistas que abrilhantavam os shows daquela casa e no entanto o meu “tutor” na altura, o grande Vítor Mendes nunca me deixou entrar lá, alegando que não tinha idade para frequentar tal lugar!

Acabei por fazer a minha estreia pela mão do grande Paulo Fernando!

Muitos anos antes, já me tinha igualmente apaixonado por outra casa mágica, o Fontória.

O Fontória ficava quase paredes meias com o Maxime (o Vitor Mendes não tinha jurisprudência lá…) e ocupava a sub – subcave de um prédio na Praça da Alegria. Quem descia os lances de escadas da perdição, quase que parecia que estava a entrar nas profundezas do demo.

O "velho" Manolo fazia as honras da casa.

A média de idades das mulheres que ali alternavam, deviam andar pelos 50, 60 anos. As mesas eram decoradas com um oleado aos quadrados vermelhos e brancos, moda ultra retro, recentemente importada das Galinheiras. As bailarinas que atuavam duas vezes por noite, envergavam maiôs pretos, daqueles que se usavam na ginástica, decorados com fitas brilhantes iguais às que decoram as árvores de Natal. Eram quase todas “reformadas” do Parque Mayer!

O Wiskey era do pior que havia, Quem o bebia arriscava-se a nunca mais ser pai na vida!!!!

Em contrapartida, a orquestra era do melhor. Músicos que tinham tocado na Orquestra ligeira da Emissora Nacional. O baterista, cujo nome já não me recordo, dava aulas no Hot Clube, mesmo ali ao lado. E foi ali que conheci o verdadeiro Serafim Saudade. Foi ali que Herman se foi inspirar par afazer um dos seus mais populares “bonecos”.

Mas a cereja no topo do bolo, era a D. Lurdes. Senhora já de alguma idade que deambulava entre as mesas, com uma cesta de verga no regaço. Lá dentro…ROSAS!

Eram essas rosas que serviam de cartão-de-visita para se encetar conversa com as “meninas”. O processo era do mais romântico que existe; o cliente chamava a D. Lurdes, comprava uma rosa e pedia-lhe para a ir entregar a determinada” menina”, a qual viria depois à mesa agradecer acto tão nobre a cavalheiresco. Desafio qualquer um, a descrever-me coisa mais romântica do que esta!

 

noite 1.jpg

 

Dito isto, penso que está patenteado o meu amor por Lisboa e as suas ancestrais tradições.

Ora bem…nestes últimos dias, tem circulado por aí uma petição contra o encerramento do Jamaica e outras casas noturnas da zona do Cais do Sodré. Nestes últimos dias têm-se multiplicado os artigos de opinião, alguns dos quais assinados por gente que eu muito admiro, em defesa da tradição e do bairrismo lisboetas.

Insurgem-se contra a transformação de algumas casas típicas em hotéis de charme e boutiques de moda duvidosa.

Eu sei que muitos destes críticos, não têm idade para ter memória, por isso mesmo lembro que esta revolução imobiliária, não começou agora. Em boa verdade, teve o seu inicio muito antes da invasão turística que muitos criticam agora.

Sabem…em tempos que já lá vão, havia uma casa que se chamava “Ritz Club”, outra chamada Maxime, e um conjunto delas que estavam agrupadas num local que se chamava Parque Mayer.

Nada disso já existe!

Esses locais míticos, fazem parte apenas da memória de alguns, como a minha por exemplo.

Mesmo no Cais do Sodré, a maior parte das casas que animavam e deram nome ao local, já não existem há muito tempo, desapareceram com os marinheiros e estivadores que entretanto trocaram Lisboa por outras paragens.

Dizem algumas dessas vozes criticas, que o poder político (entenda-se a Câmara Municipal de Lisboa) deveria assumir o património dessas casas e zelar para que não desaparecessem.

Mas…e pergunto eu, onde estiveram essas vozes nos últimos meses? Frequentaram essas casas? Contribuíram de alguma forma para que não entrassem em processo de falência, como parece ser o caso?

Quantas delas foram nos ultimos meses ou semanas, beber uma jinjinha ao Rossio (sabem que também está em perigo?)

Onde estavam essas vozes quando o cinema Londres teve que fechar porque dava muito prejuízo, porque…eventualmente essas mesmas vozes, não foram ao cinema, as vezes suficientes…e o Condes e o Odéon e tantos, tantos outros?

É muito fácil deitar as culpas nos outros quando a nossa própria incompetência, nos manda ficar deitados, muito calados, a ver o que acontece (vide “rifão quotidiano” de Mário Henrique Leira).

As sociedades evoluem. É inevitável e na maior parte dos casos, essa evolução resulta da nossa própria intervenção. Lisboa tem mudado muito nos últimos anos. A maior parte dessas mudanças, resultam de interesses económicos apostados em gerar mais-valias, o chamado lucro.

O Mundo é composto de mudança como cantava José Mário Branco, e as sociedades tendem a adaptar-se a essas novas realidades, quais placas tectónicas, ou peças de um puzzle que tendencialmente nunca ficará terminado.

As lojas tradicionais estão a desaparecer? Estão!

Os Tuk Tuk invadiram a baixa da cidade? É verdade

Os restaurantes típicos substituíram as ementas para agradar mais aos turistas? Pois foi!

E já agora…não se esqueçam que o tão emblemático Papa Açorda, deixou o Bairro Alto, para se instalar na zona do Cais do Sodré!

Pois…Esta coisa da tradição só não é boa se for para os outros, não é D. Catarina???

 

 

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