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Rádio Alcatifa

por escadas, em 04.07.13

Caros amigos

Partilho convosco, o trabalho final que apresentei na cadeira de "Questões Contemporâneas da Comunicação e da Cultura", no âmbito do Mestrado que estou a fazer no ISCTE.

 

 

 

 

Portugal nunca teve uma tradição de rádios comunitárias.

Contrariamente ao que se passou no resto da Europa, o espectro radiofónico português, sempre foi dominado pela rádio do Estado, a rádio da igreja católica, o Rádio Clube Português e meia dúzia de pequenas estações emissoras que se reuniam sob a designação de Emissores Associados de Lisboa.

Chegou a pensar-se, que com o aparecimento das”novas rádios”e a liberalização das frequências, pudessem aparecer este tipo de rádios, mas a tendência foi precisamente a contrária do esperado, uma mimetização dos modelos evidenciados e em muitos casos, criticados pela maioria.

 

A ideia de emissoras de radiodifusão alternativas e autónomas, desvinculadas dos padrões institucionais impostos pelo controle estatal, não é recente.

Embora o termo rádio livre esteja mais associado às emissoras que surgiram nos anos 70, o “fenómeno” existe desde o início da radiodifusão, mas foi precisamente na década de 70, associado aos movimentos libertários europeus, em especial em Itália e França, que a denominação ganhou um maior impulso político, desenvolvendo-se através de emissões locais de alcance reduzido.

Acredita-se que a primeira rádio de caracter livre tenha sido uma emissora sindical que surgiu na Áustria em 1925!

 

Aqui ao lado, a vizinha Espanha tem inúmeras rádios comunitárias, chegando ao cúmulo de na Catalunha, existirem projectos que são financiados pela própria “Junta Autónoma”.

 

Os mais românticos, dirão que este não é no entanto o modelo original da Rádio Comunitária, que este tem que ser livre, eventualmente à margem da lei por forma a poder disputar a seu belo prazer o espectro radiofónico e emitir nas frequências que desejar.

O Brasil tem muitos exemplos deste tipo de guerrilha radiofónica, com “quartéis” perfeitamente estabelecidos nos morros das favelas e partilhando em algumas horas do dia, as frequências das rádios oficiais e de grande audiência.

 

Confunde-se com alguma frequência as designações “Rádio Livre” e “Rádio Comunitária”.

Apesar de algumas querem que seja o mesmo, de facto a diferença é enorme.

Pela natureza do nome, a rádio comunitária, insere-se no espírito de comunhão entre os membros de uma determinada comunidade ou bairro, o seu espectro de difusão é extremamente limitado do ponto de vista estrutural, funciona com a “boa vontade” de alguns e assume-se como o ele de ligação entre todos os moradores do bairro, ao dar informações estritamente de interesse local e proporcionar debates sobre temas relacionados exclusivamente com a comunidade.

A “Rádio Comunitária Mania” por exemplo, surgiu no Brasil no bairro de Porto Canoa na região de Serra em 1995 e o processo adoptado para a difusão foi a do cabo, ou seja, os responsáveis pelo projecto, colocaram estrategicamente nas ruas do bairro, principalmente nas paragens de autocarro e áreas comerciais, pequenas colunas de som que ligadas entre si, amplificavam a emissão da rádio. Não havia frequência radiofónica e como tal não era possível ouvir a Rádio Mania, numa vulgar telefonia. A sua programação, visava fundamentalmente a divulgação de promoções do comércio local, entrevistas com moradores e debates sobre temas comunitários.

Em dois anos, o sucesso desta “rádio”, fez com que expandissem o seu “sinal” a dois bairros vizinhos!

Hoje em dia, esta rádio não só conquistou uma frequência, como adquiriu outras rádios, estando presente actualmente em 12 comunidades na região de Serra.

Relativamente à Rádio Livre, ou ao espírito libertário que lhe está associado, uma vez mais e pela natureza do nome, se depreende que tende a estar à margem da lei.

A Rádio Caroline, será porventura o exemplo mais conhecido, mas existem muitos outros exemplos em toda a Europa, sendo que Itália congrega o maior número delas.

Em Portugal, durante os anos que antecederam a legalização das chamadas rádio locais, existiram algumas tentativas de emissão das chamadas Rádios Livres. A constante guerra de frequências que se viveu então, levou a que muitas destas rádios se preocupassem mais na conquista do espaço de emissão, do que propriamente nos conteúdos a emitir, por isso mesmo a adesão da população nunca foi muita.

Para os defensores das Rádios Livres a difusão de publicidade é algo que não é sequer equacionável pois esta, deverá viver sempre livre do espectro comercial e da sua dependência.

O panorama actual é desolador.

Com uma ou outra excepção (ente elas a Rádio Manobras no Porto) Portugal será dos poucos países em que não há de facto uma rede de rádios comunitárias!

O apogeu das Web Rádios e o desenvolvimento tecnológico poderá alterar esta realidade em breve, mas até lá…

A Rádio Alcatifa, tenta de alguma forma, dar o pontapé de saída.

Uma rádio que não se move pela ditadura da “play list” em que os temas apresentados, surgem, porque significam de facto algo e não apenas porque estão nos tops de venda.

Uma rádio com prioridade à palavra e ao que ela significa enquanto elo de ligação entre as pessoas.

Uma rádio que devolva a “esfera pública” aos ouvintes, tornando-os protagonistas da “sua” rádio, confrontando-os com as suas próprias deficiências, provocando rupturas se for esse o caso.

Uma rádio irreverente e que simultaneamente consiga ainda surpreender, devolvendo ao “éter” a paixão e a emoção de outros tempos.

Mais do que uma homenagem aos “obreiros” da telefonia sem fios, a Rádio Alcatifa, pretende jogar com os sons e as palavras, criando uma atmosfera própria, onde a mensagem, por vezes muito subliminar, é uma constante.

A Rádio Alcatifa não é inocente, a sua militância é assumida desde o primeiro minuto, através do reconhecimento implícito de uma eventual falta de paixão. Reconciliando-se logo de seguida, num acto de redenção para com o seu público.

O acto de comunicar reflecte estas preocupações; a reconciliação com o receptor, a única forma da relação emissor – receptor existir e produzir frutos, conhecimento.

A não existência de caixas de som, como as da Rádio Mania, faz com que seja fácil mudar de frequência, sintonizar outra estação. No nosso dia a adia, este simples acto, repete-se vezes sem fim, sempre que a “emissão “ não nos agrada, ou seja, sempre que a comunicação seja deficiente.

Veja-se por exemplo o ciclo eleitoral, cada vez mais contestado por aqueles que não ganharam e que leva a que muitas vezes as eleições se antecipem em dois ou mais anos.

A comunicação está longe de estar perfeita e os intérpretes têm cada vez mais dificuldade em se expressar, criando verdadeiros anacronismo históricos.

A falta de trabalho, as dificuldades cada vez maiores para o conseguir, são também aqui tratados de uma forma, pouco ortodoxa.

A Rádio Alcatifa não é uma rádio óbvia, mas se obrigar a pensar, nem que seja por uma “pequena” hora e meia, já é meio caminho andado.

 

Conceito, edição, realização de entrevistas e recolha de sons: Fernando Neves

 

ISCTE, MCCTI – 2012 / 2013

“Questões Contemporâneas da Comunicação e da Cultura”

 

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