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Os Mensageiros da Desgraça

por escadas, em 12.10.12

 

 

Gervásio era um rapaz pacato.

A sua educação cristã, tinha-lhe incutido princípios básicos de sã convivência e de solidariedade para com os próximos.

Casou aos 19 anos com a rapariga mais bonita que tinha conhecido nos bancos da escola, a Clarinha. Nunca conheceu mais nenhuma mulher.

Do enlace nasceram Francisco e Joana, um casalinho que era a alegria de toda a família.

O emprego que tinha na Junta de Freguesia, permitia-lhe passar férias todos os anos em Monte Gordo, dar um salto até Ayamonte e comprar uns sacos de caramelos e meia dúzia de postais para oferecer aos restantes membros da família, que não tinham sido tão afortunados como ele na vida.

Não havia Natal nenhum que Gervásio não se lembrasse dos seus.

Para o Pai a garrafa de Vinho do Porto, a Mãe recebia uma moldura com a fotografia dos netos (tirada na praia), a irmã mais velha levava um livro de receitas (que tinha sido editado pelo Presidente da Junta) o cunhado, um bilhete para ir ver um jogo do Cinfães Futebol Clube e quanto à irmã mais nova, emigrada na Suíça, esperava que viesse de férias em Agosto e levava o pacote todo: chouriça, queijo e garrafa de azeite, tudo da mercearia da D. Ermelinda, a única que vendia produtos 100% da terra.

Naquele ano, uma súbita e inesperada doença, não deixou a mana mais nova vir festejar o “S. Miguel”como era habitual.

Não resistindo a tanta saudade e também desconfiado com a dimensão da maleita, o Pai Afonso, tomou a iniciativa de ir ele até Genéve. E não adiantou toda a discussão que entretanto se gerou, a decisão estava tomada e ao fim e ao cabo, para alguma coisa serviria o dinheiro amealhado ao longo dos anos, resultado das sobras da parca reforma da Casa do Povo. E o Senhor Afonso ainda fez mais, numa atitude nunca vista e aproveitando o facto dos netos estarem de férias, decidiu pedir emprestada a carrinha do pão ao Mestre António, seu compadre das tardes de sueca no largo da Igreja e organizou um pequeno grupo excursionista. Se a sua filha mais nova estava doente, precisava da visita dos familiares mais próximos e foi assim que numa manhã de Sábado, Gervásio viu partir numa Bedford Transit com matrícula de 1976, Pai, Mãe, esposa, irmã e os seus dois filhos. A andar bem, a comitiva chegaria a Genéve ainda antes de azedar a canja de galinha que a Mãe Aurora tinha cozido com tanto amor e que jurava que era o remédio que a sua “mais que tudo” precisava.

A comitiva fez-se ao caminho e ainda não eram 5 da tarde, já tinham atravessado a fronteira de Fuentes de Oñoro.

Resignado à sua condição de guardião do “castelo” a que tinha sido votado, Gervásio ocupava o seu dia-a-dia com o trabalho na Junta, na esperança que as horas fossem iguais aos minutos e estes iguais aos segundos!

Mas não eram e pior ainda, dois dias depois da família ter saído, foi acordado às 5 da manhã por Gilberto, o filho mais velho da D. Ermelinda.

A Lua ainda iluminava o alpendre quando Gervásio abriu a porta e logo aí percebeu que a “coisa” não deveria ser boa.

- Gervásio, Gervásio, nem sei como te dizer isto, gritava Gilberto, A TUA FAMÍLIA MORREU TODA, A CARRINHA VIROU-SE E CAIU NUMA RIBANCEIRA. MORRERAM TODOS!!!

Gervásio transfigurou-se. Em fracções de segundo, toda a sua vida, lhe passou pela frente, a sua amada Clarinha ainda no recreio da escola primária, a festa de casamento, a Mãe vestida como nunca a viu e a bebedeira do Pai, já no fim da boda.

Recordou Clarinha grávida do primeiro filho e depois do segundo, o baptizado, o primeiro Sarau de Ginástica nos Bombeiros e o ultimo Natal. O que Gilberto lhe acabara de dizer é que os principais protagonistas da sua vida, tinham acabado de desaparecer. As suas referências limitavam-se agora ao Piloto, o rafeiro que o acompanhava todos os dias de manhã até ao café e ao cunhado Luís Miguel, que o mais provável é que aquela hora ainda não tivesse chegado da “Sereia do Douro” a casa de alterne mais próxima de Cinfães.

- Morreram todos? Mas como é que isso aconteceu? Que vai ser de mim? É uma desgraça!!! Como é que eu vou conseguir viver????

Ao ver as lágrimas caírem-lhe copiosamente pela cara, Gilberto com um abraço fraterno, que só os verdadeiros amigos sabem dar, agarrou-se a ele e disse-lhe com voz calma e serena:

- Calma Gervásio, tem calma, não foi a família toda, foi só o teu Pai!

 

Serve este texto apenas para vos dizer uma coisa:

VALE UMA APOSTA COMO NA SEGUNDA-FEIRA VAMOS SER ACORDADOS COM A NOTÍCIA DE QUE AFINAL OS AUMENTOS DE IRS SÃO MENORES DO QUE ESTÃO A DIZER HOJE?

 

Percebem agora a lógica da história?

 

 

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