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Os Ciganos do Porto

por escadas, em 17.06.17

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Demorei algum tempo a reagir ao texto / desabafo tornado público pelo eurodeputado Manuel dos Santos.

Faço-o hoje por pudor mas também por coerência para com os princípios que os meus Pais me ensinaram.
Diz o meu amigo Ricardo Gonçalves, que Manuel dos Santos foi infeliz na sua observação. Lamento mas não foi.

O eurodeputado eleito na lista do Partido Socialista e representante do povo português em Bruxelas, não foi infeliz no que disse, ele apenas foi sincero, e não foi a primeira vez. Relembro que durante a campanha das directas que levou António Costa à liderança do PS, Manuel dos Santos disse de Costa o que Maomé não disse do toucinho, mas isso são águas passadas.
O que está em causa é opinião que este representante da nação tem sobre um dos seus concidadãos e isso é algo que deve ser considerado no mais breve espaço de tempo.
Contrariamente ao que pensa Ricardo Gonçalves, eu acho que Manuel dos Santos deve de facto ser censurado e afastado de cargos electivos.

Um partido responsável e que se quer respeitado não pode ter nas suas fileiras, dirigentes que se prestam a este tipo de apreciações xenófobas e caciqueiras, que por despeito ou ignorância possam ser entendidas como uma matriz funcional.
Não serve de desculpa o facto da pessoa em causa ter lutado pela liberdade ou ser um histórico do Partido Socialista. Sotto Mayor Cardia, a seu modo foi igualmente um histórico do PS e um lutador da liberdade e infelizmente a doença afastou-o do nosso convívio.
Exige-se uma resposta rápida e coerente.
A boa "praxis" assim o exige.

 

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publicado às 23:25

Ex Nihilo Nihil Fit

por escadas, em 07.06.17

A Secretária Geral Adjunta do Partido Socialista assina hoje no JN, um artigo de opinião sobre a condição de “independente”.

Por ter relativamente a esta matéria, uma opinião contrária, remeto para este espaço o meu entendimento sobre a reflexão que a

Dra. Ana Catarina Mendes hoje protagoniza.

 

 

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Ser-se independente não é um estado de espírito.

Muitos daqueles que hoje se reclamam como tal, já militaram em partidos políticos e se o deixaram de ser é porque os mesmos deixaram de ser uma constância na sua participação cívica.

Os partidos não são todos iguais e se alguma dúvida existia, a gestão do actual governo veio demonstrar que há de facto uma diferença profunda entre esquerda e direita. No entanto essa diferença já não se reflete a nível ideológico, há muito que deixamos de ter partidos marxistas, ou trotskistas. Os partidos hoje em dia valem pelas suas lideranças. O PSD de hoje por exemplo não tem praticamente nada a ver com o mesmo PSD neo liberal de Cavaco Silva ou de Francisco Sá Carneiro, no entanto os militantes são os mesmos, o mesmo acontecendo com o Partido Socialista.

Este PS está longe do Partido Socialista de Mário Soares e de António Campos por exemplo ou meso de Jorge Sampaio. O que eu quero dizer com isto é que é a prática política que cada partido imprime na gestão dia a dia que define um maior ou menor alinhamento partidário. De nada serve a determinado partido estar no governo se os seus militantes tiverem uma “Praxis” (eu também sei grego) contrária aos princípios definidos pelo seu líder.

Não se pode erguer a bandeira da solidariedade por um lado e por outro ter dirigentes partidários a praticarem o oposto.

O facto de cidadãos terem optado por se manterem à margem da actividade partidária não faz deles um “deus menor” ou uma espécie de “madalenas arrependidas” e muito menos alvos privilegiados de “desculpas de mau pagador”.

Ser-se independente significa em primeira análise que o individuo se mantém equidistante das lideranças partidárias e que se reserva a dar ou não o seu voto em dia de eleições. Os partidos têm que perceber de uma vez por todas que “vivem para os cidadãos” e não, “apesar dos cidadãos” e isto não é uma questão de se ser mais ou menos democrático, é o que faltava só se poder outorgar a chancela democrática a partir da actividade partidária!

O que não compreendo no discurso da Dra. Ana Catarina Mendes é este seu súbito assumir de culpas e passo a citar

 

“Não posso deixar de reconhecer que algum fundamento para a propagação destas ideias tem sido o próprio funcionamento dos partidos, cuja reforma e abertura tem de ser uma preocupação e um combate constante e nunca acabado por parte dos responsáveis políticos. O fechamento dos partidos sobre si próprios, a natureza de sindicatos de voto de algumas estruturas partidárias e a falta de um verdadeiro pluralismo interno constituem fatores objetivos para o afastamento dos cidadãos, não apenas dos partidos, mas também da própria participação democrática.”

 

Dito isto pergunta-se; mas a Dra. Ana Catarina Mendes enquanto Secretária Geral Adjunta do Partido Socialista não é a responsável por esta reforma? O cargo que ocupa dentro da estrutura do seu partido não deveria ser aquele que deveria coordenar/promover/implementar essa mesma reforma?

Mas o artigo de opinião da secretária geral adjunta do PS tem mais “Vox nihili“ (como se comprova eu também sou um poço de sabedoria).

Atendamos agora a esta breve passagem da sua reflexão:

 

“Há um princípio fundamental que é bom que nunca ninguém esqueça, não há democracia sem partidos. E o primeiro dever dos democratas é a defesa da democracia"

 

Devo dizer em abono da verdade que já ouvi várias vezes este “Vox Populi” (mais uma…) e muito sinceramente não me apetece recordar esses anos longínquos em que se referendaram as tendências totalitárias e as "unicidades" de alguns responsáveis políticos.

Mas numa coisa estamos de acordo; o primeiro dever dos democratas é defender a democracia, aliás deve ser por isso mesmo que muito desses democratas, não militando em partidos políticos, continuam a participar activamente nas assembleias municipais da sua área de residência, dando assim um contributo inequívoco para o pluralismo democrático. São estas pessoas, que enchem os salões municipais mas que também discutem a coisa pública nos mercados ou nos restaurantes há hora de almoço e que apontam o dedo aos partidos e aos seus dirigentes sempre que não defendem esses mesmos valores democráticos.

Estes independentes não hipotecam o seu voto a qualquer preço. São resilientes e pedem esforço, dedicação e…solidariedade em troca de um sim no dia das eleições.

E é desta independência que os partidos têm medo!

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publicado às 17:03

OS DIAS DA RÁDIO

por escadas, em 13.02.17

 

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Em dias como o de hoje, é costume dizerem-se coisas como “a rádio é a minha paixão” ou “a rádio é a minha vida”.

Nasci para a rádio numa noite quente (tórrida) de verão na Amareleja, Alentejo profundo. Na telefonia do carro (era assim que se chamava na altura) ouvia-se a voz de Hermenegildo Gomes responsável na Antena 1 pelo programa “Separata Especial de Sábado”.

Naquela noite disse para mim mesmo; eu quero ser como este gajo. É isto que eu quero fazer na vida!

Os episódios que se se sucederam até ter chegado finalmente à dita rádio, (que acabou por não ser a “tal” Antena1 mas sim a Rádio Renascença), são matéria para outro dia, mas foi um percurso nada fácil e cheio de incidentes, os quais só reforçaram a minha certeza de que era de facto ali atrás de um microfone, no anonimato do estúdio, que eu me realizava como pessoa.

Por tudo isto em dias como o de hoje, prefiro parafrasear a Ana Catarina Santos; A rádio é o sangue que me corre nas veias!

É difícil explicar esta ligação quase umbilical, só mesmo quem vive de e para a rádio a consegue perceber sendo que esta perceção é nos dias que correm cada vez mais difícil.

A rádio de hoje vive na sombra de um divórcio litigioso que ocorreu na primeira década dos anos 60. A determinada altura, o seu grande amor o ouvinte, descobriu uma nova paixão, a televisão e sem dó nem piedade virou-se para o seu rádio a pilhas e exclamou: o problema não és tu sou eu!

Desde aí, a rádio tentou ultrapassar o trauma de ter sido trocada pela “outra” e nessa ansia de se reencontrar cometeu vários erros sendo que o maior deles foi ter encarado a própria televisão como uma concorrente.

Comparar a televisão com a rádio é a mesma coisa que comparar um livro com um filme. São campeonatos diferentes, são duas realidades que eventualmente se completam, mas que nunca entram em competição entre si.

O grande segredo da rádio, reside no mistério, na interpretação que o ouvinte faz daquilo que ouve, tal como num livro ou até mesmo numa pintura, a ausência de imagem faz com que a experiencia de quem ouve seja individualista, própria de cada um.

É uma experiência sensorial única!

É óbvio que a rádio que se faz hoje está a anos-luz da telefonia que fazia parar o Portugal nos anos 70, quando a seleção nacional de hóquei em patins jogava por exemplo.

É meu entendimento que precisamos de mais suor no rádio, mais transpiração e menos computadores.

A rádio é hoje em dia uma enorme “jukebox” com critérios discutidos entre os algoritmos de uma aplicação informática que gere a playlist da estação.

Ouçam a emissão da TSF no dia do incendio do Chiado, a reportagem do João Paulo Baltazar quando narrou em direto o confronto entre polícias secos contra polícias molhados em pleno Terreiro do Paço e perceberão o que quero dizer.

Podia relembrar aqui algumas das vozes que nos marcaram ou programas que fizeram história, o Pão com Manteiga, o PBX, o Página 1, o Café Concerto, o imortal Morrison Hotel, a Febre de Sábado de Manhã, A Cor do Som e tantos, tantos outros que preencheram o nosso imaginário, mas neste dia gostaria de lembrar dois nomes, apenas dois, e neles espelho todo um universo de gente que tinha a rádio nas suas veias e que viveram de e para a rádio.

Emídio Rangel e Jorge Perestrelo

Obrigado aos dois

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publicado às 08:12

Obrigado

por escadas, em 19.12.16

Esta é a altura do ano em que é costume desejarem-se Boas festas.

Há quem deseje apenas festas boas, mas…sigamos em frente.

Confesso que fiquei bastante hesitante, ainda estou, sobre esta natalícia tradição. A hipocrisia com que se “pintou” esta época do ano, faz-me pensar seriamente na direção em que caminhamos.

Trocaram-se os afetos por telemóveis, com ou mais menos megapixéis, mas todos com banda larga para se poderem partilhar as fotos das mesas fartas e recheadas de produtos que na sua maioria irão parar ao lixo devido ao excesso de consumo e para se enviar SMS aos demais conhecidos a informar que já contribuiu para a campanha de solidariedade X.

Aproveita-se a época para se fazerem campanhas de angariação de fundos.

Os benefiicados (além do IVA claro) são instituições de solidariedade social, as quais em regra só recebem estas “fantásticas” oferendas, neste mês de dezembro, pois durante o resto ado ano, toda a gente se esquece que existem, aliás, gostaria de deixar aqui um apelo aos responsáveis por essas instituições: FECHEM AS PORTAS ENTRE JANEIRO E NOVEMBRO! Abram apenas durante o mês de dezembro e assim justificam a BULA (a taxa Camarae) que muitos de nós pagam por estes dias. Dito por outras palavras; compram-se indulgências a avulso, para ficarmos prosaicamente descansados o resto do ano. Troca-se o silêncio vergonhoso do nosso egoísmo por uma ida à Worten e dois cobertores vermelhos para ajudar os velhinhos!

Posso estar enganado, mas isto não é Natal, este não é o MEU NATAL.

Tal como Ary dos Santos escreveu

“Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser”

Pois…está visto que o Homem não quer, ou então tem uma vontade muito pequenina, mais na razão inversa do seu egocentrismo!

Não era isto que eu queria.

 

O que eu quero é mesmo desejar a todos, a todos sem excepção, um Santo e feliz Natal.

Acho que não tenho inimigos, apenas alguns ditos amigos, que o tempo se encarregou de me mostrar que “esses”, de amigos apenas têm o seu próprio umbigo e nada mais, mas até esses eu desejo UM SANTO E FELIZ NATAL!

O meu mantra para este ano foi muito simples; tentar dar a outra face. Perdoar a quem não o merecia, desculpar a quem do meu ponto de vista esteve menos bem.

Confesso que não consegui!

Tentei bastantes vezes, mas confesso que a vontade de os mandar a todos bardamerda continua a ser maior que a vontade de os receber de novo de braços abertos.

Não sou de ressentimentos, mas também não sou nenhum santo, por isso mesmo decidi que o meu objectivo em 2017 será o de continuar nesta demanda.

Aos outros, a todos aqueles que continuam a fazer parte desta minha caminhada, o meu obrigado.

Obrigado por não terem desistido

Obrigado por não esperarem por dezembro para ajudarem os outros

Obrigado por continuarem a dar significado à palavra solidariedade

Obrigado por se manterem justos

Obrigado por concretizarem o sentido do Natal todos os dias

Obrigado

UM SANTO E FELIZ NATAL PARA TODOS

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publicado às 15:46

A ESTALINIZAÇÃO DA NAÇÃO

por escadas, em 22.11.16

O grande líder da classe operária (da União Soviética entenda-se) ficará para a história como um dos maiores precursores da “tinta corretora”!

Penso que é do conhecimento geral, a alteração que Estaline mandou fazer a uma foto registada em 1930. Na foto original, aparecia Nikolai Yezhov (chefe da polícia secreta soviética e que era conhecido como “anão sanguinário”) que entretanto caiu em desgraça junto do grande líder soviético. Numa época em que ainda não havia Photoshop a opção passou por retocar a foto e retirar o “velho” amigo do enquadramento geral.

 

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O mesmo aliás já tinha sido feito com Trotsky uns bons 20 anos antes, depois deste ter perdido uma disputa interna no Partido Comunista, a qual levou Estaline ao poder.

Esta expurga tinha como finalidade reescrever a história.

Estaline desconhecia na altura que anos mais tarde seria inventada uma coisa chamada internet!

 

 Para quem acha que estes acontecimentos são obra do passado, desengane-se.

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O canal de televisão SIC, emitiu no passado sábado mais um episódio de “Perdidos e Achados”. Desta vez o alvo foi o “Dia Europeu sem Carros” que por acaso decorre em toda a europa no mês de…setembro, mas enfim…

Os mais novos não devem saber do que estou a falar, mas para o caso convém referir que se trata de uma data/iniciativa que visa promover a mobilidade nas cidades.

Em Portugal, o primeiro “Dia Europeu sem Carros” decorreu em 2000, João Soares era presidente da Câmara Municipal de Lisboa e José Sócrates ministro do ambiente.

 

 

Todos os estudos efetuados no dia seguinte ao evento e que tentaram apurar a eficácia da iniciativa, referem uma adesão perto dos 80%. Mesmo as propostas mais arrojadas e as que representavam eventualmente um maior risco de sucesso como em Lisboa por exemplo, resultaram num êxito total. Lembro que João Soares vedou o acesso aos carros numa área compreendida entre o Campo Pequeno e o Cais das Colunas!

Em Portugal a iniciativa foi promovida pelo Ministério do Ambiente e teve no secretário de estado do ambiente, o engenheiro Rui Gonçalves o seu principal coordenador. Do ponto de vista político, esta foi uma das primeiras provas de fogo de José Sócrates dentro do governo chefiado por António Guterres e uma forma de afirmação do seu peso politico que viria a ser confirmado no ano seguinte com a descriminalização do consumo de drogas, mas já lá vamos.

A opinião foi unânime; o Dia Europeu sem Carros em Portugal foi um exemplo para toda a europa e o civismo demonstrado pelos portugueses um exemplo a seguir e a replicar por outros países.

Reparem no dominador comum desta ultima parte do texto – João Soares e José Sócrates.

Pois bem, a reportagem da SIC emitida ontem, consegue esta coisa fantástica de não ter uma única referência a José Sócrates, uma única!

 

Mas há mais:

Há duas semanas, assinalou-se os 15 anos da descriminalização do consumo de drogas em Portugal.

E é bom que se falem destas coisas, pois o documento continua a ser uma referência mundial, digo bem, MUNDIAL!

A iniciativa de mudar o paradigma das drogas em Portugal tem um único responsável; José Sócrates.

Pode não se gostar, mas há coisas que são mesmo assim. Decorria o ano de 1998 quando o então ministro-adjunto do Primeiro-ministro e que tinha a tutela do Projecto VIDA, a entidade que coordenava a prevenção das toxicodependências em todo o território nacional, teve a ousadia de reunir à mesma mesa alguns dos maiores nomes ligados a esta problemática; o prof. Cândido Agra, João Goulão (presidente do SPTT), o Procurador-Geral Adjunto Lourenço Martins, os psiquiatras Júlio Machado Vaz e Nuno Miguel, a especialista em saúde mental e psiquiatria Maria Manuela Marques, o prof. Alexandre Quintanilha, o psicólogo Joaquim Rodrigues e finalmente Daniel Sampaio que foi também o relator do documento final.

 

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 Foi este grupo de personalidades que um ano mais tarde, produziu aquilo a que se convencionou chamar “Estratégia Nacional de Luta Contra a Droga”, um documento pioneiro e inovador apresentado em cerimónia oficial na residência oficial do primeiro-ministro e que estabelecia um novo paradigma na prevenção e combate às toxicodependências, apontando claramente para a despenalização do consumo, situação que se veio a verificar em 2001.

Pois bem, no passado dia 7 o jornal Público refere-se a este acontecimento (os 15 anos da despenalização) e assinala como ponto mais importante desta reforma estruturante…MANUELA ARCANJO, que era na altura a responsável pela pasta da saúde!

Percebo certa animosidade que continua a existir em relação a José Sócrates, o que não posso aceitar é que a História, seja ela qual for, a História enquanto património coletivo, seja despudoradamente reescrita com vista à criação de uma nova realidade.

Eu sei que Putin continua a sonhar com a reunificação soviética, mas Estaline ainda não ressuscitou!

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publicado às 23:17

O NACIONAL TAXISMO

por escadas, em 28.09.16

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O maior problema da cidade de Lisboa, é sem sombra de dúvida, o trânsito.

Não sei se por inépcia ou se por vontade política, o transito nos últimos anos tem-se vindo a agravar.

Não se diga que a culpa é das obras. As obras são sempre necessárias e uma cidade sem obras é uma cidade morta.

A culpa é tão somente de quem governa, autarquia (e) ou poder central, da falta de gestão. Dois exemplos;

 

1 – estacionamento em segunda e terceira fila.

Não se percebe. Ninguém consegue compreender que se possa estacionar impunemente em segunda e por vezes em terceira fila, em qualquer rua da cidade de Lisboa. Almirante Reis, Morais Soares, Guerra Junqueiro, Av. De Roma, como dizem os americanos “You name it”, é só escolher…é à vontade do freguês, vale tudo sem que algum agente da autoridade (para quem não sabe, são aqueles senhores de bigode e barriga de fora) se incomode com a situação. Aqui os incomodados são aqueles que precisam de circular no alcatrão e não conseguem, os transportes públicos por exemplo, que ao terem o seu lugar de paragem ocupado, têm de o fazer em segunda fila, interrompendo a normal circulação.

 

2 – cargas e descargas Alguém sabe as horas legais para carga e descarga de mercadorias? Claro que não e se está regulamentado, ninguém as cumpre e se ninguém as cumpre, acham que alguém se importa com isso?

Hoje de manhã, a meio de uma discussão com um policia, perguntei se conhecia alguma capital europeia onde isto acontecia, e até lhe dei o exemplo de Londres. Resposta do jovem agente da autoridade: “sabe que se assim fosse as pessoas teriam que trabalhar só de noite não sabe?”. Ainda argumentei com a profissão de padeiro, mas desisti. Percebi rapidamente que apesar de jovem, a cabeça daquele agente da autoridade estava convenientemente formatada e que jamais evoluiria. As cargas e descargas são um verdadeiro cancro na cidade e contribuem verdadeiramente para o caos que se vive na capital. É uma anarquia completa e não parece haver por parte da autarquia qualquer tipo de vontade politica para resolver este problema. Neste como em muitos outros casos, parece que o ideal é varrer o problema para debaixo do tapete, mas a questão é que o problema nunca se resolverá, antes pelo contrario.

Nesta cidade, pode-se estacionar em segunda e em terceira fila, fazer qualquer tipo de descarga a qualquer hora do dia. A prioridade é dada a este tipo de actividade. Se quem vier atrás tiver que parar…que pare! Este tipo de atitude representa acima de tudo uma grande falta de respeito pelos outros, é como se alguém se sentisse com mais direitos que os outros tipo, português de primeira e português de segunda. Mas esta falta de civismo não é apenas de quem conduz, é sobretudo de quem gere o dia a dia desta cidade, da autarquia.

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Fazer obras não é apenas fazer buracos.

Alterar a fisionomia de uma cidade, torna-la mais bonita, mais amiga das pessoas, às vezes é bem mais fácil do que parece e muito mais económico, basta querer!

 

E finalmente o taxismo!

Estão a ver aquele individuo, tuga dos sete costados, que andou a vida toda a poupar uns trocos para montar a sua própria Casa de Pasto? Pois bem, é esse mesmo que agora não admite que um outro português, tão tuga como ele, tenha resolvido investir as poupanças de toda uma vida…num atelier de bifanas, meia dúzia de portas mais abaixo da mesma rua.

Os taxistas, são uma classe corporativista, xenófoba e reacionária. Só neste país é que o responsável de uma classe profissional responde a uma iniciativa governamental com a frase: “isto vai dar porrada” (desconhece-se se depois desta tirada poética, atirou uma bola de cuspo para o chão). Este é o tipo de atitude que numa sociedade democrática como a nossa não pode ser tolerada por ninguém, mas ainda assim parece que sim…Os taxistas foram hoje recebidos pelo presidente da camara municipal de lisboa. Será que Fernando Medina foi dizer aos taxistas que não podem estacionar na Praça Paiva Couceiro em segunda e terceira fila condicionando assim o restante transito? Duvido.

Em cima da mesa está uma greve marcada para dia 10 de outubro.

Este é o tipo de coisa qua a malta agradece, os colaboradores da UBER e Cabify e todos aqueles que diariamente têm que andar pelas ruas de Lisboa, enfrentando com coragem o Nacional Taxismo!

 

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publicado às 16:01

A MINHA REENTRÉ

por escadas, em 04.09.16

 

É da História. O maior inimigo do PS, é o próprio PS. Os mais novos não se lembram, mas durante o consulado de António Guterres (coisa do século passado) o maior partido da oposição era…o próprio grupo parlamentar do Partido Socialista!

Esta é uma das muitas tradições socialistas, a que os portugueses não acham muita graça. Tenho para mim, que os tugas, aquela mole humana que ainda se dá ao trabalho de ir votar, não acha muita piada a gente que gosta de instabilidade, feitios…

Vem isto a propósito da chamada “reentre”.

A “Silly Season” já lá vai (ou será que não…) e por estes dias em que boa parte dos portugueses resolveu voltar a ocupar o seu posto de trabalho e contribuir assim para a sustentabilidade da Seguração Social, os portugueses, dizia eu, são confrontados com as opiniões/premonições do casal Passos/Cristas.

Não tenho o poder extrassensorial do comendador Marques Mendes, mas convenhamos que não precisamos de ser nenhum Harry Potter ou uma Maya na fase pré silicone, para se perceber que a direita vai voltar ao poder, mas mês menos mês. E reparem que digo isto e a SIC ainda não me convidou para comentar a situação politica actual!!

Ora bem e porque é que eu digo isto, porquê? Primeiro porque posso, depois porque me apetece, e em terceiro lugar porque basta ver o tipo de comunicação que o PS tem produzido para se perceber que a coisa não está famosa, aliás se mais fosse preciso bastava ler nas entrelinhas do discurso de António Costa na reentre política deste ano!

…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………o quê????? Não soube de nada? Não ouviu nada? Pois…se calhar não ouviu nada porque de facto não existiu.

Catarina Martins desdobrou-se em entrevistas. Usou e abusou do verbo disparatar.

Jerónimo de Sousa e a CGTP, tomaram conta dos media durante mais de 3 semanas

Assunção Cristas, tirando a sessão fotográfica para a revista “men's health” e aquela coisa do biquíni encarnado, dominou (imaginar Assunção Cristas Dominatrix é o fim da linha) durante os meses de Julho e Agosto e Passos, bem…Passos continua igual a si próprio, o que não sendo propriamente mau, não deixa de ser terrivelmente bom!

Pelo meio, tivemos uma noticia “bombástica” que dava conta do Partido Socialista estar falido e que até os próprios dirigentes nacionais tinham que ser eles a pagara as contas da água e da luz, e das “mines” acrescento eu! Esta notícia que de bombástica não tem nada, apareceu numa altura ótima, foi “plantada” a preceito e conseguiu ser notícia de abertura em quase todos os serviços noticiosos do dia.

Os mais perspicazes devem estar a pensar a esta altura, bem mas os responsáveis do PS, do que está no poder, os que nos governam atualmente devem ter reagido cedo a essa notícia não???? Bem…não foi bem assim…as coisas são mais complicadas do que parecem e sabem…estamos todos em férias, uns a descansar, outros a ler as entrevistas da Catarina Martins e a tentarem perceber o significado oculto da analogia bloquista, enquanto que outros estão entretidos a colar na parede, posters com as fotos de Assunção Cristas em biquíni (apenas os mais novos). E este é que o grande drama que vivemos. Temos um primeiro- ministro que lidera um governo que pela primeira vez em Portugal tentar mudar o paradigma da inevitabilidade do Bloco Central, e as pessoas continuam sem acreditar que isso é mesmo possível. Porquê? Porque continuam a olhar para o seu umbigo, porque se esquecem que cá fora há um País que não percebe patavina do que andam a fazer e que todos os dias é intoxicado com a propaganda direitista que a maior parte dos media tentam fazer passar.

É impressionante a quantidade de ministros que vivem na sombra e que por isso mesmo ninguém sabe quem são ou o que fazem. Um estudo levado a efeito na terceira semana de Agosto em 4 zonas de veraneantes, mostrou que 87% dos inquiridos com idade superior a 23 anos não faz ideia de que são os ministros que compõe este governo.

Mais; para uma impressionante fatia de 8,9% Passos Coelho ainda é o primeiro-ministro!

Termino esta minha reflexão e que marca a minha própria “reentré” (toma António Costa, VAI BUSCAR!!!!) com as palavras intemporais de Eça de Queirós:

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»


Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

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publicado às 22:34

Yes mr. Minister

por escadas, em 24.06.16

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…e de repente toda a gente é entendida em assuntos europeus, mesmo aqueles que nunca votaram para o dito parlamento.

De repente toda a gente acha que os ingleses estão malucos (ou talvez não…).

De repente toda a gente se acha no direito de ser um Nuno Rogeiro!

Qué isso??? Nuno Rogeiro só há um e esse, ainda não eram oito da manhã já tinha a certeza de que David Cameron tinha atrasado a sua declaração ao Reino, porque estava ao telefone com o Presidente da China, depois de ter falado cm o Presidente da União Europeia e com Obama (não se percebe porque é que não falou com Durão Barroso e com Michel Temer).

Nuno Rogeiro sabe, tem certezas, tal como Ricardo Costa e a esmagadora maioria dos recém-criados analistas políticos. Esquecem-se no entanto estes “iluminados” que este “Brexit” não aconteceu ontem.

Esta fuga para a frente teve o seu início, no mesmo dia em que o Reino Unido se recusou a fazer parte da moeda única. O que aconteceu ontem foi apenas o culminar de uma arrogância insular, caracterizada por David Cameron em conluio com os responsáveis das instâncias europeias. É bom não esquecer, que o ainda (até Outubro ao que parece) primeiro-ministro inglês, ganhou as ultimas eleições com um discurso do mais populista que se tem visto, prometendo entre outras coisas, a realização do referendo que veio a perder!

A pergunta que todos fazem agora é; e como é que isto foi possível?

Eu respondo com a mesma sapiência que caracteriza José Manuel Fernandes; os políticos europeus têm sobrevivido ao longo destes últimos anos, olhando apenas para o umbigo uns dos outros (diga-se em abono da verdade que na maior parte dos casos, só olham para o seu…).

A participação cívica nos atos eleitorais que definiram o atual parlamento europeu e as instituições que o regem tem sido francamente deplorável se não mesmo dececionante. Os europeus há muito que se divorciaram destes políticos.

A europa da coesão e da solidariedade de Jean Monnet e Jacques Delors, deu lugar a uma sociedade de capital misto com interesses em paraísos fiscais e em sociedades de capitais de risco!

A isto tudo, junta-se uma Inglaterra que viveu sempre da mama europeia.

A culpa é apenas deste senhor Cameron? Claro que não. A culpa é da senhora Thatcher, do senhor Blair e de tantos outros autocratas que se têm auto glorificado à nossa custa. Hoje foi o Reino Unido (ou Desunido como alguns já lhes chamam), amanhã será a Dinamarca e a Holanda.

Em vez de meditarmos sobre isto, talvez seja esta a hora de tomar medidas concretas, como por exemplo, perguntar a toda a gente e de uma vez por todas:

QUEM QUER PERTENCER A ESTE CLUBE?

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 P.S. este não é o primeiro referendo britânico à permanência na União europeia. Em 1975 Harold Wilson promoveu um, tendo ganho o sim com a expressiva margem de 67%

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publicado às 16:10

AS VACAS QUE VOAM

por escadas, em 02.06.16

(e outros animais mitológicos)

 

 

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O congresso do partido Socialista, que se realiza este fim-de-semana em Lisboa, é uma boa oportunidade para refletirmos sobre a saúde da nossa democracia e a dieta a que tem sido submetida desde 1974.

Não sei se já repararam, mas temos quase tantos anos de democracia, como de ditadura o que nos deveria deixar de certa forma orgulhosos. Então por que não estamos?

Diz-se por aí que Portugal vive pela primeira vez desde 74, uma experiência de aliança à esquerda. Parece que as várias esquerdas resolveram entender-se, o que provocou uma azia tremenda em certos senhores ditos de direita, se fosse comigo eu também estaria a caixas diárias de Kompensan, pelo menos até o Partido Comunista acordar e perceber que se continuar a apoiar este governo, perderá a sua base eleitoral nas próximas eleições…por outro lado, há quem diga que Catarina Martins está de malas aviadas para o Teatro Nacional, abraçando assim uma profissão da qual nunca se divorciou completamente.

Mas se tudo isto é verdade (ou não…) ou pelo menos verosímil, porque é que o Partido Socialista não está contente?

Com excepção de Ascenso Simões, (cabeça de lista pelo distrito de Vila Real) que fez publicar uma notável reflexão sobre o momento atual do PS e a moção que António Costa apresenta a este congresso, a oposição interna praticamente não existe, resumindo-se apenas a meia dúzia de comensais que entre decibéis de refluxos de neofagia aguda, continuam ainda a viver em Lilliput!

Entre outras apreciações, Ascenso Simões afirma na entrevista citada que a moção que Costa apresenta a Congresso não passa de um “buraco negro” (ups…ó Dr. Galamba, parece que há pelo menos uma pessoa naquele Partido que não tem medo de falar…), mas eu gostaria de me debruçar noutra passagem do texto. Diz o deputado socialista que “ um Governo não é feito de uma só pessoa, um partido não é feito de uma só voz. Concordo, mas infelizmente não é verdade.

Temos assistido ultimamente a uma transformação profunda na forma como os partidos políticos (alguns) se têm reestruturado, a começar por exemplo pela implementação das eleições diretas. Mas se olharmos mais atentamente para a realidade deste PS, vemos que os caciques de outrora que dominaram o Partido e o fizeram perder várias eleições, continuam a dominar o aparelho do Partido, veja-se por exemplo o que se passa na Federação de Coimbra, que é digno de uma qualquer novela de “Corin Tellado” mas com contornos pidescos!

Por outro lado, as últimas sondagens demonstram sem margem para duvidas que continua a existir uma diferença clara entre António Costa e o Partido que dirige, ou seja, os portugueses confiam em Costa, mas continuam a ter dúvidas em relação ao Partido Socialista.

Até há poucos anos, os partidos, distinguiam-se entre si através de uma “coisa” chamada IDEOLOGIA. Quando eram chamadas a votar, as pessoas escolhiam entre partidos de acordo com a ideologia que representavam, comunistas, sociais-democratas, democratas cristãos e militantes extremistas apresentavam as suas propostas e o povo votava!

Hoje em dia, temos um Partido Socialista que é social-democrata, um partido Social Democrata que é popular e um Partido Popular que também é popular, apesar de ser democrata cristão; e ainda querem que as pessoas não se confundam?????

De facto, há muito que se deixou de votar em partidos. Quem acompanhou campanhas eleitorais sabe perfeitamente que as pessoas votaram no Sócrates, no Passos Coelho, no Portas e no Costa, em detrimento dos partidos que representam. São estas personalidades fortes (ou não) que arrastam as multidões e decidem os resultados eleitorais.

Dito isto, é legítimo perguntar para que servem então os partidos?

Será que posso avaliar determinado partido, através do comportamento de um seu qualquer dirigente? Voltando ao lamentável caso de Coimbra, será que os eleitores do PS de Coimbra irão definir o seu sentido de voto de acordo com o comportamento dos atuais dirigentes, ou olharão apenas para o comportamento de António Costa à frente do executivo?

E não é menos verdade que cada um de nós olha para o nosso colega de trabalho e tenta relacioná-lo com o seu partido político? Expressões como: “vê-se mesmo que é do PSD”, ou então “são todos iguais…” já há muito que fizeram parte do nosso dia-a-dia e demostram como apesar de tudo, tentamos integrar cada um, no todo.

Quando Miguel Cadilhe disse em 2005 que Cavaco Silva era um eucalipto (secava tudo à sua volta) o antigo ministro das finanças estava a caracterizar a personalidade política do antigo primeiro-ministro. Obviamente que não há comparação possível entre os dois políticos, mas podemos questionar os terrenos em que se move Costa hoje em dia. Não se pode acusar António Costa de ter secado o terreno à sua volta, antes pelo contrário, mas convenhamos que a imagem não é simpática.

Por enquanto, António Costa está sozinho a puxar um barco que teimosamente tenta ultrapassar todas as tormentas, mas a corda pode esticar por excesso e partir-se…

Enquanto português de boa-fé e contribuinte exemplar, desejo que esta “experiência” governativa surta efeito, mas se por mero acaso formos chamados às urnas antes de tempo e tivermos que olhar não só para Costa mas para a toda a sua “entourage”, iremos chegar a que conclusão?

O panorama não é brilhante, diria mesmo – obscuro.

Este é um tema que tenho a certeza que não será debatido neste Congresso, mas mereceria um pouco mais de atenção.

 

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publicado às 22:25

EM DEFESA DA MEMÓRIA DE LISBOA

por escadas, em 11.03.16

Sou um apaixonado por Lisboa, sempre fui.

Guardo memórias de uma Lisboa boémia, com bares de cores obscuras, vedados por portas que só se deixavam abrir a clientes menos dados ao chamado “main stream”. Casas noturnas em que mal se vislumbrava a cara dos clientes, tal era o fumo que inundava o espaço.

Ainda hoje guardo com melancólica saudade, o cheiro e as cores de uma pequena leitaria que existia mesmo no início da Rua do Alecrim. Era aí que parava antes de empreender a subida até à Rua Ivens 14, poucos minutos antes da meia-noite. Era aí que comia a minha última bucha, antes de entrar ao serviço na Radio Renascença. Foi aí que conheci a Joana, rapariga de meia idade que se prostituía nos bares do Cais do Sodré. A Joana tinha uma lista com a tabela dos barcos, que carregados de marinheiros escolhiam Lisboa periodicamente como ponto de paragem. Tal como eu, a Joana também tomava a sua última bucha naquela leitaria, antes de entrar ao serviço no Jamaica e no Escandinávia, Niagára ou Roterdão. A Joana conhecia de cor, as cores dos néons de toda essa fauna.

 

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Confesso que a primeira vez que entrei no Escandinávia, tinha as pernas a tremer. O ambiente era pesado. A “concorrência” era pesada, alma era leve (tal como a carteira). Valeu-me na altura a Joana que me apresentou a Maria, mulher corpulenta com mais de 100 kg e que ambicionava amealhar o dinheiro suficiente para abrir uma banca de jornais, era um doce de mulher. Também havia uma outra amiga que sonhava com uma peixaria! Estórias de vida que só por si davam um livro.

Mas não recordo apenas o Cais do Sodré. Lembro como se fosse ontem a primeira vez que entre no Maxime, já depois de completar 18 anos. O curioso desta história é que trabalhei durante alguns anos com muitas das artistas que abrilhantavam os shows daquela casa e no entanto o meu “tutor” na altura, o grande Vítor Mendes nunca me deixou entrar lá, alegando que não tinha idade para frequentar tal lugar!

Acabei por fazer a minha estreia pela mão do grande Paulo Fernando!

Muitos anos antes, já me tinha igualmente apaixonado por outra casa mágica, o Fontória.

O Fontória ficava quase paredes meias com o Maxime (o Vitor Mendes não tinha jurisprudência lá…) e ocupava a sub – subcave de um prédio na Praça da Alegria. Quem descia os lances de escadas da perdição, quase que parecia que estava a entrar nas profundezas do demo.

O "velho" Manolo fazia as honras da casa.

A média de idades das mulheres que ali alternavam, deviam andar pelos 50, 60 anos. As mesas eram decoradas com um oleado aos quadrados vermelhos e brancos, moda ultra retro, recentemente importada das Galinheiras. As bailarinas que atuavam duas vezes por noite, envergavam maiôs pretos, daqueles que se usavam na ginástica, decorados com fitas brilhantes iguais às que decoram as árvores de Natal. Eram quase todas “reformadas” do Parque Mayer!

O Wiskey era do pior que havia, Quem o bebia arriscava-se a nunca mais ser pai na vida!!!!

Em contrapartida, a orquestra era do melhor. Músicos que tinham tocado na Orquestra ligeira da Emissora Nacional. O baterista, cujo nome já não me recordo, dava aulas no Hot Clube, mesmo ali ao lado. E foi ali que conheci o verdadeiro Serafim Saudade. Foi ali que Herman se foi inspirar par afazer um dos seus mais populares “bonecos”.

Mas a cereja no topo do bolo, era a D. Lurdes. Senhora já de alguma idade que deambulava entre as mesas, com uma cesta de verga no regaço. Lá dentro…ROSAS!

Eram essas rosas que serviam de cartão-de-visita para se encetar conversa com as “meninas”. O processo era do mais romântico que existe; o cliente chamava a D. Lurdes, comprava uma rosa e pedia-lhe para a ir entregar a determinada” menina”, a qual viria depois à mesa agradecer acto tão nobre a cavalheiresco. Desafio qualquer um, a descrever-me coisa mais romântica do que esta!

 

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Dito isto, penso que está patenteado o meu amor por Lisboa e as suas ancestrais tradições.

Ora bem…nestes últimos dias, tem circulado por aí uma petição contra o encerramento do Jamaica e outras casas noturnas da zona do Cais do Sodré. Nestes últimos dias têm-se multiplicado os artigos de opinião, alguns dos quais assinados por gente que eu muito admiro, em defesa da tradição e do bairrismo lisboetas.

Insurgem-se contra a transformação de algumas casas típicas em hotéis de charme e boutiques de moda duvidosa.

Eu sei que muitos destes críticos, não têm idade para ter memória, por isso mesmo lembro que esta revolução imobiliária, não começou agora. Em boa verdade, teve o seu inicio muito antes da invasão turística que muitos criticam agora.

Sabem…em tempos que já lá vão, havia uma casa que se chamava “Ritz Club”, outra chamada Maxime, e um conjunto delas que estavam agrupadas num local que se chamava Parque Mayer.

Nada disso já existe!

Esses locais míticos, fazem parte apenas da memória de alguns, como a minha por exemplo.

Mesmo no Cais do Sodré, a maior parte das casas que animavam e deram nome ao local, já não existem há muito tempo, desapareceram com os marinheiros e estivadores que entretanto trocaram Lisboa por outras paragens.

Dizem algumas dessas vozes criticas, que o poder político (entenda-se a Câmara Municipal de Lisboa) deveria assumir o património dessas casas e zelar para que não desaparecessem.

Mas…e pergunto eu, onde estiveram essas vozes nos últimos meses? Frequentaram essas casas? Contribuíram de alguma forma para que não entrassem em processo de falência, como parece ser o caso?

Quantas delas foram nos ultimos meses ou semanas, beber uma jinjinha ao Rossio (sabem que também está em perigo?)

Onde estavam essas vozes quando o cinema Londres teve que fechar porque dava muito prejuízo, porque…eventualmente essas mesmas vozes, não foram ao cinema, as vezes suficientes…e o Condes e o Odéon e tantos, tantos outros?

É muito fácil deitar as culpas nos outros quando a nossa própria incompetência, nos manda ficar deitados, muito calados, a ver o que acontece (vide “rifão quotidiano” de Mário Henrique Leira).

As sociedades evoluem. É inevitável e na maior parte dos casos, essa evolução resulta da nossa própria intervenção. Lisboa tem mudado muito nos últimos anos. A maior parte dessas mudanças, resultam de interesses económicos apostados em gerar mais-valias, o chamado lucro.

O Mundo é composto de mudança como cantava José Mário Branco, e as sociedades tendem a adaptar-se a essas novas realidades, quais placas tectónicas, ou peças de um puzzle que tendencialmente nunca ficará terminado.

As lojas tradicionais estão a desaparecer? Estão!

Os Tuk Tuk invadiram a baixa da cidade? É verdade

Os restaurantes típicos substituíram as ementas para agradar mais aos turistas? Pois foi!

E já agora…não se esqueçam que o tão emblemático Papa Açorda, deixou o Bairro Alto, para se instalar na zona do Cais do Sodré!

Pois…Esta coisa da tradição só não é boa se for para os outros, não é D. Catarina???

 

 

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